O plano de abertura que dita o tom incômodo de “Obsessão” traz Bear (Michael Johnston) trancado em um quarto, ensaiando meticulosamente as palavras exatas para se declarar a uma colega de trabalho. Sob as lentes do jovem diretor Curry Barker, essa gagueira tímida e a aparente inocência do homem apaixonado não servem para gerar empatia. Elas funcionam como o primeiro sintoma de um mal silencioso. O filme se estabelece nas telas não como um conto de fadas sombrio, mas como um registro clínico da incapacidade masculina de lidar com a rejeição e com a autonomia do desejo do outro.
Produzido com um orçamento modesto de apenas US$ 750 mil pela Focus Features, o longa rapidamente quebrou barreiras comerciais e se tornou um fenômeno de bilheteria e crítica, ultrapassando a marca histórica de US$ 470 milhões mundialmente. O impacto cultural da obra reside justamente na coragem de subverter as expectativas do público: em vez de entregar os sustos fáceis e os monstros físicos do cardápio tradicional do gênero, Barker usa o pretexto do sobrenatural – o misterioso Salgueiro dos Desejos – para projetar na tela o terror hiper-realista da possessividade humana.
O perigo de confundir possessividade com paixão
A narrativa acompanha o desdobramento catastrófico que ocorre após o pedido de Bear para que Nikki (Inde Navarrette) o ame acima de todas as coisas. A partir do momento em que a mística é acionada, a direção constrói uma atmosfera asfixiante através de tomadas longas e planos estáticos que recusam o alívio visual ao espectador.
A transformação progressiva do comportamento de Nikki é encenada com uma agressividade visual psicológica avassaladora. É um formato de desgaste residencial e de horror que dialoga fortemente com o ambiente opressor que discutimos recentemente na nossa crítica e análise da dinâmica de Mulheres Imperfeitas, onde as fachadas sociais respeitáveis servem apenas para ocultar acordos profundamente disfuncionais.
O grande trunfo dessa metade inicial de Obsessão está no absoluto distanciamento moral da câmera em relação ao protagonista. O roteiro se recusa veementemente a validar a carência ou a solidão de Bear como justificativas aceitáveis para o apagamento da identidade de Nikki. O que assistimos no circuito comercial é um ensaio perturbador sobre o egoísmo contemporâneo: a lente de Barker captura com precisão como o indivíduo muitas vezes prefere conviver com uma projeção vazia, moldada à força para satisfazer suas próprias fantasias de validação, a aceitar que não é o centro do universo de alguém. É um suspense de ritmo cirúrgico, feito para incomodar o público a cada interação.
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A recepção de Obsessão ajuda a explicar por que o filme ganhou tanta repercussão. No Rotten Tomatoes, são 93% de aprovação da crítica e 94% do público; no Metacritic, a média é 77/100. Entre os elogios, aparece justamente a capacidade de Curry Barker de transformar uma premissa conhecida em algo desconfortável sobre desejo, dependência e relacionamentos, destacando como o diretor conversa diretamente com sua geração ao levar para o terror conflitos afetivos muito atuais.
Mas nem todo mundo comprou completamente essa proposta. A falta de profundidade psicológica para alguns considera que o filme se enxerga como mais inteligente do que realmente é. Eu fico mais próximo do primeiro grupo: existem pontos que poderiam ser mais desenvolvidos, mas reduzir Obsessão à velha história do “cuidado com aquilo que deseja” seria ignorar justamente o que mais me incomodou nele – Bear consegue o amor que queria, mas, para isso, Nikki precisa perder o direito de escolher se quer amá-lo.

O elenco é fundamental para que Obsessão funcione, mas é Inde Navarrette quem mais impressiona. Como Nikki, ela precisa fazer com que duas versões da mesma personagem pareçam ocupar aquele corpo, e consegue isso sem depender apenas dos diálogos.
O olhar muda, os movimentos ficam estranhos, o sorriso incomoda e até os momentos de aparente carinho carregam a sensação de que alguma coisa está errada. O mais interessante é que Navarrette nunca deixa desaparecer completamente a vulnerabilidade da verdadeira Nikki, o que torna tudo ainda mais perturbador.
Michael Johnston trabalha quase no sentido contrário. Seu Bear começa tímido, inseguro e fácil de compreender, e isso é importante para aquilo que o filme pretende fazer depois.
Aos poucos, Johnston permite que apareçam outras camadas daquele “bom moço”, principalmente quando percebemos o quanto Bear consegue justificar situações absurdas porque, de alguma forma, elas também realizam aquilo que ele sempre quis. É uma atuação menos chamativa que a de Navarrette, mas necessária para que nossa percepção sobre o personagem mude junto com a história.
Vale a pena assistir “Obsessão”?

Obsessão é altamente recomendado para os entusiastas do terror psicológico focado no estudo de personagens, para quem busca roteiros provocativos que geram discussões éticas pós-sessão e para aqueles que apreciam performances intensas de entrega física no elenco de gênero.
O longa, no entanto, não é indicado para espectadores que procuram por jumpscares previsíveis, dinâmicas de ação frenética ou para quem se sente excessivamente desconfortável diante de tramas que expõem abusos emocionais e relacionamentos tóxicos de forma crua e direta.
A produção entrega uma das experiências cinematográficas mais marcantes e divisoras de opinião do ano. Vale o play porque demonstra uma maturidade rara ao usar o cinema de gênero para filmar o invisível: as correntes psicológicas que o egocentrismo é capaz de forjar sob o falso pretexto do amor.
⚠️ AVISO DE SPOILER: O trecho a seguir revela detalhes cruciais do desfecho e segredos da trama de “Obsessão”.
O Salgueiro dos Desejos e a Máscara da Submissão Sobrenatural

Quando a narrativa de Curry Barker ultrapassa a barreira do mistério cotidiano e escancara a natureza da possessão de Nikki, a tese sobre a podridão moral de Bear ganha contornos aterrorizantes. O filme atinge o ápice do desconforto ao expor cenas pesadas de abuso psicológico e físico perpetradas pela entidade que habita o corpo da jovem.
O choque central dessas sequências não reside na agressividade da criatura em si, mas no deleite silencioso e na cumplicidade covarde de Bear. Em vez de se horrorizar com a destruição da mulher que dizia amar, ele se alimenta daquele simulacro bizarro de devoção.
Essa dinâmica de transformar o afeto em um sistema de controle e sofrimento dialoga de perto com o que já abordamos na crítica de O Morro dos Ventos Uivantes (2026). Onde aquela adaptação de Emerald Fennell extrai horror ao transformar uma paixão clássica em um ambiente doentio, Obsessão utiliza o verniz místico para alcançar o mesmo resultado perturbador: o retrato de um homem disposto a aceitar uma farsa destrutiva contanto que seu ego permaneça inflado e validado.
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Há aqui uma rima temática muito sutil com o que assistimos no thriller de ficção científica Acompanhante Perfeita (2025). Naquela obra, a personagem de Sophie Thatcher também encarna o pesadelo de uma mulher despida de vontade própria, moldada artificialmente para servir e satisfazer a carência masculina de controle.
Mas enquanto no longa de Drew Hancock a inteligência artificial tenta quebrar essas amarras de forma explícita através da ficção, em Obsessão o diretor Curry Barker prefere usar o horror folclórico para mostrar o estágio mais degradante dessa perda de agência: o momento em que a vítima se torna um mero objeto de deleite nas mãos de um parceiro egocêntrico.
A Queda Definitiva do “Bom Moço”

A farsa do romance cai por terra por completo na sequência mais brutal do longa, que sela o verdadeiro caráter do protagonista. Em um breve e desesperado momento de lucidez, enquanto a possessão dorme dentro de seu corpo, Nikki recupera a consciência. Chorando e tomada pelo horror do abuso que sofre diariamente, ela implora a Bear por um ato de misericórdia final: ela pede que ele a mate para libertá-la daquele inferno sobrenatural. É nesse instante que a máscara do “garoto tímido e apaixonado” cai sem deixar vestígios.
Bear se recusa a puxar o gatilho, mas o roteiro deixa claro que sua negação não nasce da compaixão, de uma ética moral ou da esperança de salvá-la; ele se recusa porque está pensando única e exclusivamente em si mesmo. Ele quer continuar usufruindo do prazer egoísta que aquela situação bizarra lhe proporciona. A sua verdadeira essência só emerge quando o jogo vira e a entidade começa a ameaçar a sua integridade física.
É apenas quando a vida dele corre risco real que o incômodo surge e ele se move para tentar dar um fim à situação. Essa revelação de que a suposta proximidade humana esconde uma armadilha violenta evoca uma perversidade muito próxima daquela que desmistificamos na crítica de O Jogo do Predador (2026), onde a confiança se torna a arma mais letal de todas.
Final explicado: O que você não viu em “Obsessão”

Para quem assiste ao filme em busca de respostas, o terceiro ato revela que o Salgueiro funciona sob uma lógica cruel: ele não manipula os sentimentos da vítima, mas sim aprisiona a alma da pessoa em um limbo sobrenatural, inserindo uma entidade mímica no corpo físico para simular a obsessão solicitada. Bear percebe essa troca macabra quando a falsa Nikki começa a agir de forma violenta. Contanto que aquele simulacro bizarro continuasse inflando seu ego e fingindo devoção, ele estava disposto a tolerar o sangue ao seu redor.
Um dos detalhes mais perturbadores da reta final – e que corrobora perfeitamente a tese do egocentrismo masculino – ocorre quando a entidade percebe o distanciamento de Bear. Para tentar emular o novo interesse do parceiro, a criatura toma uma atitude puramente visual e violenta: ela veste as roupas de Sarah, desenha a caneta a mesma tatuagem de coração que a jovem tinha e chega ao extremo de costurar o escalpo do cadáver de Sarah em sua própria cabeça. O diretor Curry Barker usa esse choque visual para provar que a mente possessiva não busca um par real, mas sim uma projeção maleável, moldada pelo fetiche e pela conveniência.
A Reviravolta do Banheiro
A farsa do romance é selada quando Bear descobre que a única forma de encerrar a possessão e libertar a alma da verdadeira Nikki é através da morte. Ele se tranca no banheiro e engole uma dose letal de oxicodona. Porém, o suposto heroísmo dura poucos segundos.
Assim que os efeitos asfixiantes da overdose começam a cobrar seu preço real, o egoísmo do protagonista fala mais alto: ele força o vômito para salvar a própria pele, escolhendo conscientemente deixar Nikki condenada ao inferno folclórico.
É exatamente nessa fração de segundo de covardia que a criatura age. No quarto ao lado, a Nikki mímica quebra o último galho restante do Salgueiro e faz o seu próprio pedido: que Bear a ame com a mesma intensidade doentia.
O feitiço atinge Bear antes que ele consiga expelir os comprimidos. Entrando em um transe hipnótico, ele aceita a possessão, caminha até a sala professando um amor artificial e morre segundos depois nos braços da criatura, vítima da overdose que ele mesmo provocou. Ele termina ironicamente privado de seu livre-arbítrio, provando do mesmo veneno que aplicou à companheira.
Como o autor do pacto original morreu, a maldição de Nikki é desfeita. O corte seco para o preto finaliza a obra com o soco no estômago definitivo: a verdadeira alma de Nikki é arremessada de volta para o seu corpo físico. Ela acorda do transe sem entender o que aconteceu, caída no chão da sala e cercada pelos cadáveres mutilados de seus três melhores amigos. O legado do egocentrismo de Bear é a destruição absoluta do futuro de Nikki, que agora enfrentará a realidade inevitável de ser condenada por crimes que seu corpo cometeu, mas que sua mente jamais desejou.
O que fica depois que o amor vira apenas uma forma de posse?

Talvez o que mais incomode em Obsessão seja perceber que, durante boa parte da história, Bear sabe que aquela não é mais a Nikki por quem se apaixonou.
Ele vê as mudanças. Percebe os comportamentos estranhos, presencia situações cada vez mais absurdas e chega a ter contato com a verdadeira Nikki, presa em algum lugar enquanto aquela outra versão ocupa seu corpo. Mesmo assim, existe uma parte dele que demora a querer abrir mão daquilo. Porque, pela primeira vez, Nikki o ama exatamente como ele sempre quis.
E é aí que o Salgueiro dos Desejos deixa de ser o mais assustador da história.
A cena em que Nikki consegue se comunicar com Bear enquanto a outra versão dela dorme é especialmente difícil justamente por isso. Ela está desesperada, pede para morrer e quer apenas ser libertada. A reação dele, porém, não é imediatamente pensar no sofrimento dela. Bear ainda consegue perguntar se ficar com ele seria realmente algo tão ruim.
Essa pergunta diz muito mais sobre o personagem do que qualquer criatura poderia dizer, pois Bear ainda está pensando em si mesmo.
E não importa que aquela relação tenha sido construída retirando de Nikki a possibilidade mais básica de qualquer relacionamento que é a escolha de querer estar ali. Para ele, durante tempo demais, ter aquela versão de Nikki parece melhor do que aceitar a possibilidade de que a verdadeira talvez nunca o escolhesse.
E isso muda completamente a maneira como enxergamos aquele rapaz tímido do começo do filme.
O problema de Bear nunca foi simplesmente amar demais. Foi acreditar que o próprio sentimento deveria ser suficiente para justificar o sentimento do outro.

Curry Barker poderia ter transformado tudo isso em uma história muito mais simples sobre tomar cuidado com aquilo que desejamos. O Salgueiro realiza um pedido, o pedido dá errado e Bear precisa encontrar uma maneira de desfazê-lo. Mas Obsessão me parece muito mais interessante quando olhamos para aquilo que o desejo revela sobre quem o fez.
O Salgueiro não obriga Bear a desejar Nikki, não escolhe as palavras por ele, e principalmente não inventa sua necessidade de ser correspondido. Ele apenas entrega a Bear exatamente aquilo que pediu. Por isso, quando a situação finalmente chega ao limite e ele descobre que sua morte pode libertar Nikki, o filme coloca seu protagonista diante da única decisão capaz de provar que aquilo que sentia por ela poderia ser maior do que ele próprio.
Ao tomar os comprimidos no banheiro, por alguns segundos, parece que Bear finalmente fará por Nikki aquilo que não conseguiu fazer durante toda a história e que estamos ansiosos que aconteça: colocá-la antes de si mesmo. Só que então ele percebe que vai morrer e tenta voltar atrás.
Não acho que isso apague completamente o fato de que ele tentou se sacrificar. Pelo contrário. É justamente essa hesitação que torna o momento mais humano e, ao mesmo tempo, mais coerente com tudo o que vimos. Bear quer corrigir o que fez, sente culpa e entende o tamanho da tragédia que provocou. Mas, quando o preço deixa de ser uma ideia e passa a ser a própria vida, ele entra em pânico.
Antes que consiga escapar, o filme faz algo ainda mais cruel. Nikki encontra outro Salgueiro e deseja que Bear corresponda àquele amor. De repente, ele experimenta exatamente aquilo que impôs a ela, ou seja, a sua vontade deixa de importar.
Por alguns instantes, os dois finalmente estão vivendo o relacionamento perfeito que Bear desejou desde o começo e nenhum dos dois está ali por escolha própria. Bear morre pouco depois, vítima dos comprimidos. Com sua morte, o primeiro desejo deixa de existir e a verdadeira Nikki finalmente recupera o próprio corpo, cercada pelas consequências de algo que nunca escolheu.
É um final cruel, mas eu não consigo imaginar outro que combinasse tanto com o filme. Porque Obsessão nunca foi realmente sobre descobrir se o Salgueiro dos Desejos era maligno ou não, e sim sobre o que um homem faria se tivesse a oportunidade de eliminar da pessoa que ama justamente aquilo que poderia afastá-la dele que é a possibilidade de dizer não.
No fim, talvez seja isso que torne Obsessão tão perturbador. Não é preciso uma maldição para transformar afeto em controle. O filme apenas leva ao extremo algo muito mais comum que a dificuldade de aceitar que amar alguém não nos dá qualquer direito de sermos amados de volta.
Nota: 8,5/10 – Cru, asfixiante e perturbador
O que você achou da postura covarde de Bear quando Nikki implorou por sua vida? O filme conseguiu traduzir o horror do egoísmo ou você esperava um desfecho mais focado no suspense sobrenatural tradicional? Deixe sua opinião nos comentários.

Ficha Técnica
Título: Obsessão | Título Original: Obsession
Ano: 2026 |Duração: 108 min
Gênero:Terror Sobrenatural | Suspense Psicológico
Direção: Curry Barker | Roteiro: Curry Barker
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless e Andy Richter e mais
Onde Assistir: Prime Video (aluguel)



