Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026): Por que o filme funciona melhor para quem não conhece a obra original?

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Existe uma guerra silenciosa acontecendo dentro de O Morro dos Ventos Uivantes (2026). E ela não está apenas entre Catherine e Heathcliff. Está entre o filme de Emerald Fennell e tudo aquilo que o público acredita que essa história deveria ser.

Porque essa adaptação não tenta preservar a imagem clássica que o imaginário popular construiu ao redor da obra de Emily Brontë. Pelo contrário. Em muitos momentos, ela parece quase provocar quem chega esperando reverência, sutileza ou fidelidade absoluta ao texto original.
E talvez seja exatamente por isso que o filme funcione melhor para quem entra nele sem essa bagagem.

Quanto menos você espera uma tradução literal do romance gótico tradicional, mais fácil perceber o que Emerald Fennell realmente está tentando fazer aqui: não adaptar o livro como objeto histórico, mas reinterpretar emocionalmente aquilo que ele provoca. Não existe preocupação em suavizar excessos ou transformar Cathy e Heathcliff em símbolos românticos. O filme remove qualquer idealização possível daquela relação e transforma obsessão em linguagem visual.

O resultado é uma experiência que certamente vai afastar parte dos fãs mais puristas – mas que encontra força justamente quando deixa de ser encarada como “a adaptação definitiva” e passa a funcionar como algo mais próximo de uma releitura febril sobre dependência emocional, desejo e autodestruição.

Quando amar alguém significa desaparecer de si mesmo

O Morro dos Ventos Uivantes (2026) acompanha Catherine Earnshaw e Heathcliff, duas figuras emocionalmente inseparáveis cuja relação atravessa desejo, obsessão, ressentimento e destruição que não apenas se amam, eles se anulam.

Criados juntos em um ambiente isolado e emocionalmente instável, os dois desenvolvem uma conexão tão intensa quanto corrosiva. Mas, conforme o tempo passa e as diferenças sociais se tornam impossíveis de ignorar, a relação deixa de ser apenas paixão e passa a funcionar como um mecanismo de autodestruição mútua.

Emerald Fennell utiliza a estrutura clássica da obra de Emily Brontë como ponto de partida, mas desloca o foco para algo mais psicológico e contemporâneo: o momento em que amar alguém deixa de ser encontro e passa a ser anulação

Jacob Elordi e Margot Robbie transformam desejo em deterioração emocional

Cena de O Morro dos Ventos Uivantes 2026 com Margot Robbie e Jacob Elordi abraçados sob céu nublado.
Margot Robbie e Jacob Elordi interpretam Cathy e Heathcliff na versão de 2026 de O Morro dos Ventos Uivantes.

Margot Robbie interpreta Catherine como alguém permanentemente em conflito entre impulso e vazio. Existe uma instabilidade emocional constante em sua performance, como se a personagem estivesse sempre tentando preencher algo que nem ela entende exatamente o que é. Aliás, Margot parece ter se especializado em personagens conflituosas e complexas como em “Esquadrão Suicida (2026)” e “A Grande Viagem da Sua Vida (2025)”.

O resultado é uma atuação que transita entre fascínio e desconforto. Catherine nunca parece totalmente presente. Ela vive como alguém absorvida pela própria intensidade.

Jacob Elordi, por outro lado, talvez entregue o trabalho mais arriscado da carreira até aqui. Seu Heathcliff abandona qualquer tentativa de romantização clássica e se aproxima muito mais de uma figura destrutiva, quase animalesca em determinados momentos, encontrando até semelhanças com o monstro em Frankenstein. E o mais interessante é que Elordi nunca tenta suavizar isso para torná-lo “amável”.

Ele entende que o personagem não é perigoso porque ama demais e sim que é perigoso porque transforma amor em posse.

O amor como decomposição emocional

Margot Robbie como Catherine em O Morro dos Ventos Uivantes 2026 encostada em uma parede
Margot Robbie estrela como Cathy na adaptação cinematográfica de O Morro dos Ventos Uivantes (2026).

Existe uma ideia visual muito forte atravessando o filme de Emerald Fennell: tudo parece úmido, deteriorado, sufocado. As paredes, os corredores, os figurinos e a textura da casa não transmitem nenhum acolhimento. Longe de ser acidental, a direção de arte transforma o ambiente em uma extensão psicológica direta de Catherine e Heathcliff.

Nesta adaptação, o amor não aquece; ele corrói. A mansão deixa de ser apenas um cenário de época e passa a funcionar como um organismo contaminado pela obsessão doentia dos protagonistas. Essa escolha estética conversa diretamente com a tese central do longa: quando alguém condiciona sua existência à presença do outro, o resultado não é a plenitude, mas a destruição. O afeto deixa de construir identidade e passa a consumir qualquer possibilidade de sanidade.

Essa abordagem intensa ajuda a entender por que a produção divide tanto as opiniões. Emerald Fennell não tenta replicar o livro de forma literal, mas dialogar com ele por meio da provocação. Elementos como músicas contemporâneas, excesso visual e a sexualização constante reforçam o recado de que não se deve esperar fidelidade absoluta ao material original. Para quem busca uma leitura clássica, o filme soa estilizado e vazio; para quem aceita a proposta, ele captura a toxicidade real que sempre esteve no coração da obra de Emily Brontë.

A prisão dos personagens dentro da obsessão dos protagonistas

O mais curioso em O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é que os personagens secundários raramente parecem existir plenamente fora da órbita emocional de Cathy e Heathcliff. Emerald Fennell filma quase todos ao redor como pessoas já contaminadas por aquela relação antes mesmo de compreenderem sua dimensão.

Isso fica muito evidente em Isabella, interpretada por Alison Oliver. A personagem deixa de ser apenas uma vítima colateral do romance obsessivo e passa a carregar algo quase infantilizado e desconfortável, como alguém seduzido pela própria ideia de destruição. Existe uma estranheza constante na forma como ela observa Cathy – uma mistura de fascínio, inveja e desejo de pertencimento que torna sua presença muito mais perturbadora do que inocente.

Shazad Latif como Edgar Linton, funciona quase como o símbolo de tudo aquilo que Heathcliff rejeita: estabilidade, racionalidade e controle. Mas o filme também parece pouco interessado em transformá-lo em contraponto moral verdadeiro. Em vez disso, ele surge como mais uma peça engolida pela intensidade emocional dos protagonistas.

Até Hong Chau, como Nelly, transmite a sensação de alguém assistindo lentamente à deterioração daquela casa sem jamais conseguir realmente impedir o que está acontecendo. E talvez seja exatamente essa a lógica da adaptação de Emerald Fennell: ninguém entra em contato com Cathy e Heathcliff sem sair emocionalmente deformado depois.

Entre o fascínio visual e a rejeição dos fiéis

Jacob Elordi e Margot Robbie com vestido vermelho bufante em cena de O Morro dos Ventos Uivantes 2026
Cena de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) destacando o figurino moderno de Emerald Fennell

O mais interessante dessa adaptação é que o filme parece constantemente em guerra com a própria ideia de romance. Em vários momentos, ele seduz visualmente o espectador para depois desmontar essa ilusão logo em seguida. A paixão entre Catherine e Heathcliff é intensa, sensual e arrebatadora – mas nunca segura. E talvez seja justamente por isso que a frase “E que nós dois sejamos condenados” fique reverberando depois dos créditos. Ela resume exatamente a tese central da direção: não existe futuro ali, apenas uma intensidade destrutiva.

Essa recusa em criar uma história de amor confortável explica por que a recepção ao longa foi tão polarizada quanto sua proposta estética. No Rotten Tomatoes, a produção continua dividindo opiniões, com 57% de aprovação da crítica contra 75% de aprovação do público. Grande parte das avaliações negativas veio justamente da rejeição às mudanças estruturais feitas por Emerald Fennell, gerando forte resistência entre os fãs mais fiéis ligados à obra original de Emily Brontë.

Por outro lado, as análises positivas destacaram a coragem estética da cineasta e a química magnética entre Margot Robbie e Jacob Elordi. O consenso que se desenha na crítica aponta para um fato inegável: mesmo quem odeia as liberdades criativas tomadas pela diretora dificilmente consegue ignorar o impacto visual da produção. O filme se recusa a ser uma cópia segura, preferindo o risco de ser odiado ao tédio de ser esquecido.

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O Morro dos Ventos Uivantes (2026) | Vale a pena assistir?

Vale desde que você aceite assistir ao filme de Emerald Fennell como uma interpretação emocional da obra, e não como uma tentativa de reproduzi-la fielmente.

Porque quanto maior for o apego à imagem clássica construída ao redor de Cathy e Heathcliff, maiores são as chances de rejeição. O filme constantemente desafia essa expectativa através do excesso visual, da sexualidade explícita, da trilha contemporânea e da forma quase agressiva como transforma romance em obsessão.

Mas existe algo interessante nisso.

Emerald Fennell parece entender que adaptar um clássico não deveria significar mumificá-lo. E talvez por isso o longa funcione melhor para quem chega sem precisar comparar cada escolha ao livro original. Nessas condições, o filme deixa de parecer uma afronta ao texto de Emily Brontë e passa a revelar algo mais interessante: uma releitura sobre pessoas que confundem amor com desaparecimento emocional.

Sem dúvida não poderia aficar de fora da lista dos meus favoritos do mês.

Margot Robbie de costas arranhando parede rosa em cena de O Morro dos Ventos Uivantes 2026
A angústia de Cathy em cena de O Morro dos Ventos Uivantes (2026), destacando o tom do painel na parede inspirado na cor da pele da atriz.

⚠️ AVISO DE SPOILERS | A partir daqui há spoilers

O Morro dos Ventos Uivantes | Final Explicado

Emerald Fennell troca o “amor eterno” pela permanência do vazio

O final de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) funciona quase como uma provocação direta à ideia de romance trágico que sempre acompanhou Cathy e Heathcliff. Emerald Fennell não parece interessada em transformar os dois em almas destinadas uma à outra. O que ela faz é muito mais cruel.

Ela interrompe a história exatamente no momento em que tudo deixa de parecer paixão e passa a revelar apenas desgaste.

Diferente do livro original, o filme elimina praticamente toda a segunda metade da narrativa e encerra sua trajetória logo após a morte de Catherine. Não existe continuidade geracional, não existe reconciliação futura e nem qualquer sensação de equilíbrio emocional surgindo depois da destruição.

E isso muda completamente o significado do desfecho.

Heathcliff não morre. O filme não está interessado em concluir sua trajetória física. O que Emerald Fennell parece querer mostrar é algo mais desconfortável: a percepção de que, sem Catherine, não sobra nele nenhuma identidade própria capaz de sustentar sua existência emocional.

A sequência final não funciona como libertação romântica, mas como exposição do vazio. Heathcliff chega tarde demais, encontra apenas o corpo de Cathy e permanece cercado por tudo aquilo que os dois destruíram ao longo da própria obsessão.

E talvez essa seja a decisão mais interessante da adaptação.

Ao encerrar a história antes da redenção presente no livro de Emily Brontë, Emerald Fennell remove qualquer possibilidade de cura simbólica. O amor não transcende. Não amadurece. Não encontra paz.
O que permanece é apenas a deterioração emocional deixada por duas pessoas que passaram tanto tempo tentando existir uma através da outra que nunca aprenderam a existir sozinhas.

Alison Oliver como Isabella Linton usando vestido listrado rosa em O Morro dos Ventos Uivantes 2026
A atriz Alison Oliver interpreta Isabella Linton na ousada e divisiva versão de O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

O que sobra quando duas pessoas deixam de existir fora uma da outra?

O Morro dos Ventos Uivantes (2026) revela um filme menos interessado em adaptar Emily Brontë de forma clássica e mais empenhado em reinterpretar emocionalmente aquilo que a obra desperta.

E isso inevitavelmente cria uma ruptura.

Quem busca fidelidade provavelmente encontrará exagero, artificialidade e excesso. Mas quem aceita entrar na proposta de Emerald Fennell sem transformar o livro em régua constante talvez encontre algo mais interessante: uma leitura moderna sobre obsessão afetiva, dependência emocional e o perigo de condicionar completamente a própria identidade à existência de outra pessoa.

No fim, talvez o filme funcione melhor justamente porque não tenta competir com o clássico.

Ele prefere ser uma experiência própria. E isso exige um tipo diferente de entrega do espectador.

Nota: 8/10 – Hipnótico, excessivo e incômodo

Pôster oficial de O Morro dos Ventos Uivantes 2026 com Margot Robbie e Jacob Elordi quase se beijando

Ficha Técnica

Título: O Morro dos Ventos Uivantes

Título Original: Wuthering Heights

Ano: 2026 | Duração: 136 min

Gênero: Drama, Romance Gótico, Thriller Psicológico

Direção e Roteiro: Emerald Fennell

Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif e mais

Onde Assistir: HBO Max