Undertone (2025) é daqueles filmes que exigem paciência logo nos primeiros minutos. Quem espera um terror acelerado, recheado de jump scares e aparições constantes provavelmente estranhará seu ritmo deliberadamente lento. Mas basta aceitar a proposta para perceber que o longa de Ian Tuason não quer assustar pelo que mostra. Ele quer provocar desconforto pelo que deixa fora de quadro.
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A premissa acompanha Evy, apresentadora de um podcast sobre fenômenos paranormais que retorna para cuidar da mãe gravemente doente. Enquanto tenta conciliar o trabalho com o desgaste emocional da rotina dentro daquela casa, gravações misteriosas começam a atravessar sua vida de forma cada vez mais inquietante. A partir desse ponto, Undertone abandona qualquer preocupação em construir sustos fáceis e passa a transformar o próprio silêncio em seu principal instrumento de terror.
O que mais me chamou atenção durante o filme foi justamente a forma como o diretor manipula o olhar do espectador. A câmera permanece tempo demais em corredores vazios, enquadra portas entreabertas e insiste em mostrar espaços aparentemente comuns. Sem perceber, começamos a fazer exatamente o que a protagonista faz: procurar algo escondido em cada canto da tela. O medo deixa de nascer da imagem e passa a existir dentro da nossa própria expectativa.
Um terror construído pelo som, e não pelos monstros
Embora conte com um elenco extremamente reduzido, é impossível dizer que Undertone dependa de grandes interpretações para funcionar. Nina Kiri sustenta praticamente toda a narrativa sozinha na pele de Evy, transmitindo de maneira convincente o desgaste físico e emocional provocado pelo isolamento. Suas únicas interações se limitam aos cuidados com a mãe acamada (Michèle Duquet) e aos diálogos com o parceiro de podcast, Justin (Adam DiMarco, presente apenas por voz). Você vai lembrar dele se assistiu à minissérie incômoda “Algo Horrível vai Acontecer (2026)”. Estas participações pontuais cumprem seu papel sem desviar o foco da protagonista, permitindo que a verdadeira estrela do filme seja a sua brilhante construção audiovisual.
E é justamente aí que Ian Tuason demonstra personalidade. O longa-metragem marca a estreia do cineasta canadense nesse formato, que antes era conhecido apenas por seus curtas-metragens de terror. A fotografia utiliza enquadramentos desconfortáveis, inclinações sutis da câmera e uma divisão constante entre espaços iluminados e corredores mergulhados na escuridão. Em vários momentos, a composição da imagem praticamente convida o espectador a procurar uma figura escondida onde talvez não exista absolutamente nada.
Mas o grande diferencial está no desenho de som. Poucos filmes recentes conseguem transformar ruídos cotidianos, pausas e frequências sonoras em elementos narrativos tão importantes. Essa proposta conversa com outra produção já analisada aqui no Tem Um Filme: Hallow Road: Caminho Sem Volta (2025). Embora utilizem linguagens completamente diferentes, ambos constroem o terror muito mais através daquilo que o espectador imagina do que pelo que efetivamente mostram em cena.

Entre o ruído sonoro e o silêncio do público
A recepção de Undertone dividiu profundamente as opiniões devido às suas escolhas estéticas radicais e minimalistas. No Rotten Tomatoes, a produção alcançou 74% de aprovação da crítica. Os críticos mais entusiasmados, elogiaram a capacidade do longa de construir um pesadelo imersivo focado no áudio. Por outro lado, alguns veículos criticaram o ritmo excessivamente lento e um desfecho que consideraram frustrante. Já entre o público, a aprovação caiu para 50%, refletindo a divisão causada pelo ritmo lento e pelo final aberto.
No IMDb, o longa registra 5,9/10, mostrando uma recepção mais morna entre os espectadores. Já o Metacritic apresenta 64/100, indicando críticas geralmente favoráveis, mas longe de um consenso absoluto, enquanto no Letterboxd, o filme tem 2,9/5. Essa diferença entre crítica especializada e parte do público faz bastante sentido. Undertone não busca agradar quem procura um terror convencional. Sua proposta depende da disposição do espectador em aceitar o silêncio, a lentidão e, principalmente, a dúvida.
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Vale a pena assistir “Undertone”?

Se você procura um filme de terror cheio de sustos rápidos e respostas fáceis, talvez Undertone não seja a melhor escolha.
Mas quem aprecia o terror psicológico encontrará aqui uma experiência bastante singular. O filme entende que, muitas vezes, o medo não nasce daquilo que enxergamos, mas daquilo que nossa própria mente insiste em completar quando o silêncio parece durar tempo demais.
⚠️ AVISO DE SPOILER: O trecho a seguir revela detalhes cruciais do desfecho e segredos da trama de “Undertone”.
Quando o acaso deixa de existir

A partir daqui, Undertone abandona qualquer preocupação em esconder sua verdadeira proposta. Os ruídos deixam de ser apenas ruídos. Os enquadramentos deixam de ser apenas escolhas estéticas. O silêncio deixa de representar ausência. Tudo passa a significar alguma coisa. E esse talvez seja o aspecto mais assustador do filme.
Durante boa parte da narrativa, Evy tenta encontrar uma explicação racional para aquilo que está ouvindo. Afinal, ela vive cercada por histórias de assombrações, produz um podcast dedicado ao sobrenatural e passa seus dias mergulhada em relatos de pessoas que juram ter encontrado padrões onde ninguém mais consegue enxergar. O problema é que, aos poucos, ela deixa de investigar esses relatos para começar a viver exatamente o mesmo processo.
É impossível não perceber como a casa muda menos do que a própria protagonista. Os corredores continuam os mesmos, a escada continua no mesmo lugar, o quarto da mãe permanece silencioso. Quem muda é o olhar de Evy.
Depois de cada novo acontecimento, sua mente passa a reorganizar toda a realidade ao redor para que ela faça sentido dentro da hipótese que começou a construir. O ruído da madeira deixa de ser a dilatação natural da casa. Uma interferência na gravação deixa de ser apenas uma falha técnica. Até o silêncio passa a parecer carregado de intenção. E foi justamente aí que para mim Undertone deixou de ser um filme sobre assombrações para se tornar uma reflexão sobre algo muito mais comum.
Todos nós já vivemos momentos assim. Seja depois de uma perda importante ou depois de receber um diagnóstico. Seja ainda depois de iniciar um novo trabalho ou até mesmo depois de terminar um relacionamento.
Nossa mente entra em estado permanente de alerta. Ela deixa de aceitar que algumas coisas simplesmente acontecem e começa a procurar conexões onde talvez nunca tenham existido.
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Quando acreditamos que existe um padrão, passamos a selecionar apenas os acontecimentos que reforçam essa crença e ignoramos todos os demais.
Undertone traduz esse mecanismo psicológico com enorme inteligência. Quanto mais Evy procura uma presença invisível, mais sua própria percepção parece fabricar evidências para sustentá-la.
E o filme faz exatamente a mesma coisa conosco. Depois de alguns minutos também estamos examinando cada enquadramento, esperando um vulto surgir atrás da porta, procurando movimentos discretos nos cantos da tela ou imaginando que qualquer ruído esconde uma ameaça. Sem perceber, passamos a compartilhar a paranoia da protagonista. É por isso que considero Undertone um terror tão eficiente, pois o medo nunca nasce daquilo que vemos e sim daquilo que nossa mente insiste em completar.
Final explicado: o que realmente aconteceu em Undertone?

A maior qualidade de Undertone é também o motivo pelo qual seu final divide tanto o público. O roteiro se recusa a oferecer uma resposta definitiva sobre a origem dos fenômenos que acompanham Evy durante toda a narrativa.
No clímax, quando as gravações sonoras atingem seu ponto mais perturbador e a protagonista parece finalmente compreender o padrão que tanto procurava, o filme corta abruptamente para uma tela preta. O horror visual é completamente abandonado, deixando o espectador imerso apenas em um design de som agonizante que sugere gritos, luta e uma queda violenta pelas escadas. Não existe uma prova física incontestável. Não há uma testemunha externa que confirme os acontecimentos. Tampouco surge uma explicação racional capaz de desmontar tudo aquilo que ouvimos até então.
Essa decisão deixa duas interpretações perfeitamente possíveis.
A primeira aceita o sobrenatural como realidade. Nessa leitura, os arquivos de áudio do podcast funcionaram como uma canalização para Abyzou, uma entidade mitológica ancestral associada à mortalidade e à perda. Ao insistir em investigar aquelas frequências, Evy abre as portas de sua casa para uma força malévola real, que se alimenta justamente da vulnerabilidade de sua situação. O silêncio, nesse caso, deixa de ser ausência de som e passa a representar um espaço ocupado por algo invisível, aguardando apenas alguém disposto a ouvir.
A segunda interpretação, que considero muito mais coerente com toda a construção do filme, aponta para um colapso psicológico progressivo. O isolamento severo, o desgaste físico e emocional de cuidar da mãe acamada e a angústia de lidar com uma gravidez indesejada criam um estado de hipervigilância permanente. Essa claustrofobia psicológica reflete a própria realidade do diretor Ian Tuason, que escreveu o roteiro enquanto enfrentava o estresse real de cuidar de seus pais em estado terminal na casa de sua infância. Sob o peso do luto iminente e do cansaço, a mente de Evy colapsa, e qualquer ruído ou coincidência passa a integrar uma narrativa sobrenatural construída por ela mesma.
Isso explica por que o filme nunca oferece uma prova definitiva da existência de uma entidade.
Ele não precisa.
Se o diretor confirmasse a presença de um fantasma, destruiria justamente a discussão que construiu durante toda a narrativa.
Undertone não quer saber se existe algo escondido naquela casa. Quer saber até que ponto precisamos acreditar que existe. É essa dúvida que transforma o desfecho em uma experiência muito mais perturbadora do que qualquer revelação explícita. Porque, quando os créditos começam a subir no mais absoluto silêncio, continuamos fazendo exatamente o que Evy fez durante todo o filme: procurando padrões, tentando conectar sons e buscando respostas, como se o acaso, de repente, já não fosse mais suficiente para explicar o mundo.
O que fica depois do silêncio?

Undertone termina sem oferecer uma resposta definitiva. E talvez seja justamente essa sua maior qualidade. Mais do que decidir se existia ou não uma força sobrenatural naquela casa, o filme nos obriga a conviver com uma dúvida muito mais desconfortável: quantas vezes somos nós mesmos que construímos os monstros que passamos a enxergar?
Vivemos tentando encontrar sentido para tudo. Procuramos explicações para perdas, coincidências, doenças e tragédias porque aceitar que algumas coisas simplesmente acontecem talvez seja uma das tarefas mais difíceis da experiência humana. O cérebro prefere uma história – por mais assustadora que seja – ao vazio deixado pelo acaso.
É por isso que Undertone permanece na memória muito depois dos créditos finais. Não pelos possíveis fantasmas, nem pelo mistério de sua casa, mas porque transforma um mecanismo psicológico extremamente comum em uma experiência de terror. Em determinado momento da vida, todos nós já estivemos convencidos de que o mundo estava nos enviando sinais. O filme apenas pergunta o que acontece quando decidimos acreditar neles.
Nota: 7/10 – Angustiante, hipnótico e provocador
Undertone é um terror psicológico que exige paciência e recompensa quem aceita entrar no ritmo de sua narrativa. Nem sempre sua construção lenta encontrará todos os espectadores, e seu final aberto certamente dividirá opiniões. Ainda assim, poucos filmes recentes conseguem transformar o silêncio em uma ferramenta de medo tão eficiente e fazer o espectador questionar, ao mesmo tempo, o sobrenatural e o funcionamento da própria mente.
E você? Depois de assistir a Undertone, ficou convencido de que Evy realmente encontrou algo sobrenatural ou acredita que tudo foi consequência de uma mente consumida pela culpa e pela hipervigilância? Compartilhe sua interpretação nos comentários e continue essa discussão aqui no Tem Um Filme.

Ficha Técnica
Título: Undertone | Título Original: Undertone
Ano: 2025 | Duração: 93 min
Gênero: Terror | Suspense Psicológico
Direção: Ian Tuason | Roteiro: Ian Tuason
Elenco: Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Keana Lyn Bastidas, Jeff Yung e mais
Onde Assistir: Hbo Max



