Crítica | A Terapia Certa (2026): Ricardo Darín e Diego Peretti em uma comédia ácida sobre saúde mental na Netflix
Ricardo Darín e Diego Peretti dividem o protagonismo de uma comédia argentina que diverte enquanto provoca reflexões sobre a relação entre terapeutas e pacientes.

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A Argentina é um dos países com maior concentração de profissionais da psicologia no mundo. É a partir dessa informação, mencionada durante uma homenagem ao psicanalista Ulises Verón, que A Terapia Certa (2026) começa a provocar uma reflexão sobre a saúde mental e o papel de quem se dedica a cuidar dela. A informação chama a atenção, mas é o que acontece depois, quando a história começa a acompanhar os encontros entre os personagens, que torna essa comédia argentina tão interessante.

Na comédia argentina disponível na Netflix, Ricardo Darín interpreta Ulises, um psicanalista reconhecido que começa a ultrapassar os limites de sua profissão ao interferir diretamente na vida dos pacientes. É nesse contexto que seu caminho cruza com o de Martín, personagem de Diego Peretti, um escritor que enfrenta um bloqueio criativo. O encontro entre os dois coloca em movimento uma história que mistura humor ácido, situações inesperadas e questões bastante delicadas sobre a relação entre terapeuta e paciente.

Confesso que minhas expectativas estavam muito altas. O encontro de Ricardo Darín e Diego Peretti em um mesmo filme já seria motivo suficiente para despertar meu interesse, mas a divulgação de A Terapia Certa como uma das grandes produções argentinas do ano também contribuiu para isso. Esperava encontrar algo realmente diferente, talvez até um daqueles filmes que aparecem de tempos em tempos e surpreendem pela originalidade.

Não sei se encontrei tudo isso, apesar de ter adorado a experiência. Fiquei envolvido desde o começo, não senti a duração e me diverti bastante com uma história que consegue ser engraçada sem abandonar seu lado dramático. E, quando terminou, percebi que havia saído da sessão com algumas perguntas que iam muito além das situações apresentadas na tela.

Ricardo Darín e Diego Peretti fazem cada encontro valer a pena

O que mais gostei em A Terapia Certa foi a maneira como Ricardo Darín e Diego Peretti dividem o protagonismo. Cada um tem seu próprio jeito de conduzir as cenas, mas nenhum tenta se sobressair ao outro. Existe um equilíbrio entre os dois que faz os encontros funcionarem muito bem, especialmente quando seus personagens começam a testar os limites daquela relação.

Em vários momentos, tive a sensação de estar assistindo a uma peça de teatro. Não porque o filme pareça limitado, mas pela força das interpretações e dos diálogos. É maravilhoso acompanhar os dois atores em cena, reagindo um ao outro, mudando o tom das conversas e encontrando humor em situações que poderiam facilmente se tornar pesadas. A cena da dança entre eles, por exemplo, é impagável e foi uma das que mais me divertiram.

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Também gostei de como a direção de Hernán Goldfrid administra o ritmo. As conversas têm espaço para acontecer, mas o filme não fica preso a elas. Há uma dinâmica entre os personagens que mantém a história em movimento, sem precisar acelerar os acontecimentos ou forçar situações engraçadas. Mesmo quando a narrativa muda de direção, essa fluidez permanece, e o desfecho consegue reunir as peças de uma maneira que me agradou.

Essa combinação de atuações e ritmo é o que sustenta boa parte da experiência. A Terapia Certa não depende apenas da presença de dois grandes atores: consegue aproveitar o encontro entre eles para construir uma comédia que tem personalidade própria. E, para mim, isso foi suficiente para acompanhar cada nova situação com interesse, sem sentir que o filme estava se prolongando além do necessário.

Diego Peretti e Ricardo Darín conversam sentados em um sofá em A Terapia Certa (2026).
Martín (Diego Peretti) e Ulises (Ricardo Darín) em A Terapia Certa (2026). Crédito: Netflix

“Lo dejamos acá”: um título que diz muito mais sobre o filme

Por incrível que pareça, uma das coisas que menos gostei em A Terapia Certa foi a versão brasileira do título. Não chega a prejudicar a experiência, mas acho que a tradução deixou escapar algo interessante. Lo dejamos acá, o nome original argentino, pode ser entendido como “vamos deixar por aqui” ou “acabamos por aqui”, uma expressão que aparece diversas vezes ao longo da história e ganha um significado especial no contexto das sessões de terapia.

Achei essa escolha muito mais interessante do que o título brasileiro, que acaba soando genérico. Afinal, já pensou se pudéssemos simplesmente encerrar determinadas conversas da vida com um educado “vamos deixar por aqui”? Até fazemos isso, mas nem sempre com tanta educação.

Diego Peretti interpreta Martín e gesticula com um copo na mão em cena de A Terapia Certa (2026).
Diego Peretti como Martín em A Terapia Certa (2026). Crédito: Netflix.

Senti falta de o próprio filme explorar um pouco mais o significado dessa expressão. Ela tem uma relação interessante com o que acontece entre os personagens e poderia ter recebido mais atenção. Não é algo que tenha prejudicado minha experiência, mas foi um detalhe que me chamou a atenção e que acabou ficando comigo depois.

Além das boas risadas, A Terapia Certa me deixou pensando na responsabilidade dos profissionais que trabalham com saúde mental. Em um mundo em que tantas pessoas procuram ajuda psicológica, será que pensamos o suficiente na preparação e na saúde emocional de quem oferece esse acompanhamento? Afinal, psicólogos, terapeutas e psicanalistas também enfrentam seus próprios problemas.

Outra questão que me chamou a atenção foi a influência que esses profissionais podem exercer sobre as decisões de pessoas que chegam às sessões em momentos de vulnerabilidade. Até que ponto essa relação pode criar uma dependência entre paciente e terapeuta? São perguntas que surgiram depois da sessão, não porque o filme ofereça respostas, mas porque algumas de suas situações me fizeram pensar nisso. E gosto quando uma comédia consegue provocar esse tipo de reflexão sem deixar de ser divertida.

A Terapia Certa | Vale a pena assistir?

Sim! A Terapia Certa é uma comédia argentina para quem gosta de humor ácido e boas atuações. E, para quem acompanha Ricardo Darín, sua presença já é motivo suficiente para dar uma chance ao filme.

Talvez eu tenha criado expectativas altas demais por causa do elenco e de toda a divulgação que encontrei antes de assistir. Não sei se concordo com quem o apresenta como o melhor filme argentino do ano, mas isso não muda o quanto gostei. A história me prendeu desde o começo, a virada da segunda metade funcionou para mim e fiquei satisfeito com o desfecho.

É um filme que me fez rir, que soube aproveitar seus protagonistas e que ainda deixou algumas perguntas depois. Não foi exatamente a grande surpresa que eu esperava, mas foi uma ótima experiência. E eu certamente recomendo.

Nota: 7/10 — Ácido. Divertido. Reflexivo.

Ficha Técnica

Título: A Terapia Certa | Título Original: Lo Dejamos Acá
Ano: 2026 | Duração: 98 min
Gênero: Comédia | Drama / Suspense
Direção: Hernán Goldfrid | Roteiro: Emanuel Diez
Elenco: Ricardo Darín, Diego Peretti, Antonia Bengoechea, Inés Efron, Andrea Politti, Patricia Echegoyen, Carlos Santamaria, Miriam Odorico, Gonzalo Urtizberéa e mais
Onde Assistir: Netflix

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William Carrillo

Criador e autor do Tem Um Filme, onde escreve críticas, ensaios e recomendações sobre filmes e séries.