Crítica | Refúgio de Inverno (2026): Lesley Manville e Ciarán Hinds em um drama lento que merece a sua atenção
Lesley Manville e Ciarán Hinds sustentam um filme contemplativo em que diálogos, olhares e silêncios dizem muito sobre aquilo que os personagens não conseguem colocar em palavras.

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Eu comecei esta crítica de Refúgio de Inverno tentando entender uma contradição: como um filme tão lento conseguiu passar tão rápido para mim? Minha expectativa era baixa e o que inicialmente despertou meu interesse foi a premissa de uma história envolvendo uma viagem. Só que, quando terminou, Amsterdã já era quase o que menos importava. Eu estava impactado por Stella e Gerry e só queria dar um abraço naqueles dois.

Interpretados por Lesley Manville (Trama Fantasma, 2017) e Ciarán Hinds (Belfast, 2021), Stella e Gerry são casados há décadas e vivem em Glasgow. Em busca de alguns dias longe da rotina, os dois viajam para Amsterdã durante o inverno. O que poderia ser apenas uma viagem do casal, porém, começa a revelar duas pessoas olhando de maneiras diferentes para a vida que construíram juntas e para decisões que talvez já não possam mais ser adiadas.

O passado também está presente nessa relação. Há algo que aconteceu muitos anos antes e que continua atravessando a vida dos dois, mas Refúgio de Inverno não tem pressa para explicar tudo. Aos poucos, as conversas, os comportamentos e principalmente os silêncios começam a mostrar que Stella e Gerry chegaram àquela viagem carregando muito mais do que suas malas.

Foi aí que o filme realmente me ganhou. Na mesma medida em que consegue ser divertido em alguns momentos, existe um desconforto por baixo de tudo que acompanha os personagens durante praticamente toda a viagem. Eu queria entender o que havia acontecido, mas, principalmente, queria entender como aquilo havia transformado aquelas duas pessoas.

E talvez seja por isso que Refúgio de Inverno, que está no catálogo do Prime Video, consiga ser contemplativo sem depender apenas de paisagens ou de cenas construídas para parecer contemplativas. São os diálogos, as pausas e a maneira como Stella e Gerry ocupam o mesmo espaço que criam essa sensação. Existe entre eles um silêncio que parece querer gritar e explodir – e o filme me fez permanecer naquela conversa até começar a compreender de onde ele vinha.

Lesley Manville e Ciarán Hinds fazem a gente ficar

Se eu permaneci tão interessado em Stella e Gerry, muito disso vem de Lesley Manville e Ciarán Hinds. Os dois entregam atuações contidas, mas intensas, que combinam perfeitamente com personagens que parecem guardar muito mais do que conseguem dizer. É nos olhares, nos gestos e até na maneira como um reage à presença do outro que boa parte da emoção aparece.

Stella foi quem mais me despertou curiosidade. Existe um mistério em torno de seu passado e, naturalmente, eu queria descobrir o que havia acontecido. Mas não foi apenas essa resposta que me manteve interessado. O que realmente me pegou foi a intensidade com que Lesley Manville mostra como a personagem absorveu aquilo e continua carregando suas consequências.

Ciarán Hinds faz algo igualmente forte com Gerry, mas por outro caminho. Há um momento em que o personagem reconhece sua relação problemática com o álcool e admite odiá-la, mas odiar ainda mais quem é quando está sóbrio. Foi uma das cenas que mais ficaram comigo porque, sem precisar revelar o que aconteceu no passado, ela deixa evidente que Gerry também encontrou sua própria maneira de conviver com aquilo que não conseguiu superar.

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Esse equilíbrio entre os dois é uma das razões pelas quais a química funciona tão bem. Stella e Gerry não parecem personagens esperando sua vez de protagonizar uma grande cena. Eles parecem duas pessoas que passaram tempo demais juntas para que tudo precise ser explicado. E Manville e Hinds conseguem transmitir justamente essa intimidade desgastada, desconfortável e ainda cheia de afeto.

Por isso, que ao escrever sobre Refúgio de Inverno, foi difícil separar o que funciona nos personagens do que funciona nas atuações. Eu queria entender Stella e Gerry, mas também queria simplesmente continuar acompanhando os dois. Quando um filme tão quieto consegue criar esse tipo de conexão, o ritmo lento deixa de ser necessariamente um obstáculo.

É lento, mas nunca parece longo

Refúgio de Inverno é um filme lento. Não acho que exista motivo para tentar vender a experiência de outra forma, porque o ritmo contemplativo faz parte daquilo que ele propõe. O curioso é que, para mim, essa lentidão nunca virou cansaço. Não senti a duração e, quando percebi, estava completamente envolvido naquela viagem.

A estreia na direção de longas-metragens da aclamada diretora de teatro britânica Polly Findlay tem participação importante nisso. O filme não tenta acelerar artificialmente os acontecimentos nem criar grandes momentos a todo instante para manter nossa atenção. Existe uma confiança muito maior nas conversas e na sequência natural do que acontece com Stella e Gerry. E foi essa simplicidade que me levou junto com eles sem cansar.

Stella e Gerry dentro de uma igreja durante a viagem do casal em Refúgio de Inverno.
Os pequenos momentos compartilhados por Stella e Gerry ajudam Refúgio de Inverno a revelar, aos poucos, a intimidade desgastada, desconfortável e ainda cheia de afeto de um casamento de décadas.

Os diálogos também ajudam muito. Mesmo quando a conversa parece cotidiana, eu continuava atento porque já sabia que havia alguma coisa por trás dela. O interesse não estava apenas em descobrir o passado, mas em observar como cada novo momento acrescentava alguma coisa à relação dos dois. Por isso, a sensação que tive foi quase contraditória: o filme avançava devagar, mas eu nunca senti que ele estava parado.

E ele melhora conforme avança. Quanto mais eu conhecia Stella e Gerry, mais aqueles pequenos acontecimentos ganhavam importância. Não precisei de uma mudança brusca de ritmo ou de uma grande virada para continuar interessado. O próprio envolvimento com os personagens foi suficiente para fazer um filme lento passar rápido.

Um filme que merece a sua atenção

Quando Refúgio de Inverno terminou, a primeira coisa que pensei foi em como a vida pode mudar e acabar sendo definida por um único acontecimento. O filme continuou comigo justamente por isso. Eu entrei naquela viagem com pouca expectativa e saí pensando em Stella e Gerry, no que aconteceu com eles e em tudo aquilo que carregaram depois.

Mas talvez a reação mais simples seja também a que melhor resume minha experiência: eu só queria dar um abraço nos dois. Depois de passar tanto tempo tentando entender aqueles silêncios, terminei emocionalmente conectado a duas pessoas que encontraram maneiras muito diferentes de conviver com aquilo que a vida colocou no caminho delas.

É também por isso que esta crítica de Refúgio de Inverno vem acompanhada de uma ressalva importante: não é um filme que eu recomendaria para qualquer pessoa. É um drama lento e contemplativo, interessado em personagens, conversas, reflexões e muitos momentos de silêncio. Quem precisa de acontecimentos constantes provavelmente vai encontrar uma experiência bem diferente da minha.

Stella e Gerry conversam junto a um canal de Amsterdã em Refúgio de Inverno.
A viagem a Amsterdã aproxima Stella e Gerry de questões que o casal carrega há anos em Refúgio de Inverno, um drama construído tanto pelas conversas quanto por aquilo que os dois não conseguem dizer.

Mas, se você gosta desse tipo de filme, acho que vale dar uma chance. Refúgio de Inverno me surpreendeu justamente porque não precisou abandonar seu ritmo para me prender. Comecei interessado por uma viagem e terminei muito mais interessado nas duas pessoas que estavam fazendo aquela viagem.

E, quando chegou ao fim, continuei sem muitas palavras. Só com aquela mesma vontade: alguém precisava dar um abraço em Stella e Gerry.

Nota: 8/10 – Contemplativo. Intenso. Tocante.

Stella e Gerry em imagem promocional de Refúgio de Inverno, com Amsterdã ao fundo.

Ficha Técnica

Título: Refúgio de Inverno | Título Original: Midwinter Break
Ano: 2026 |Duração: 90 min
Gênero: Drama | Romance
Direção: Polly Findlay | Roteiro: Nick Payne e Bernard MacLaverty
Elenco: Lesley Manville, Ciarán Hinds, Fiona Shaw, David Wilmot, Lalor Roddy e mais
Onde Assistir: Prime Video

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William Carrillo

Criador e autor do Tem Um Filme, onde escreve críticas, ensaios e recomendações sobre filmes e séries.