Existe algo curioso acontecendo com as adaptações recentes dos grandes monstros clássicos do cinema. Aos poucos, o horror parece menos interessado na criatura e mais interessado na dor que a criou. Foi assim com o premiado Frankenstein de Guillermo del Toro. E agora acontece novamente em Drácula de Luc Besson quem vem com o subtítulo: Uma História de Amor Eterno, onde o diretor abandona quase completamente o vampiro como símbolo do medo para transformá-lo em reflexo do luto.
E talvez seja justamente isso que torne o filme mais melancólico do que assustador.
Porque o Drácula de Luc Besson não parece movido pela fome. Ele parece movido pela incapacidade de aceitar a ausência. O sangue deixa de funcionar como necessidade monstruosa e passa a soar quase como consequência inevitável de alguém que se recusou a permitir que o passado morresse junto com quem perdeu.
O filme inteiro gira em torno dessa ideia. Não do amor como redenção, mas do amor como aprisionamento emocional. Um sentimento tão absoluto que deixa de salvar alguém e começa lentamente a consumir tudo ao redor.
E quanto mais o longa insiste nessa abordagem, mais distante ele fica da imagem clássica que normalmente carregamos de Drácula de Bram Stoker. Aqui, o monstro não é construído pela violência.
É construído pela permanência.
Conteúdo
- 1 Quando o amor deixa de ser lembrança e passa a impedir qualquer recomeço
- 2 Caleb Landry Jones transforma exagero em tragédia emocional
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- 3 Um filme que dividiu a crítica, mas encontrou público justamente pelo romantismo
- 4 Um romance onde amar alguém significa lentamente apagar a si mesmo
- 5 Vale a pena assistir Drácula: Uma História de Amor Eterno (2026)?
- 6 Final explicado — o momento em que Drácula finalmente entende que amar também significa deixar partir
- 7 O que fica depois da eternidade?
- 8 Ficha Técnica
Quando o amor deixa de ser lembrança e passa a impedir qualquer recomeço
Drácula: Uma História de Amor Eterno (2026) acompanha um príncipe devastado pela morte brutal da esposa no século XV. Consumido pela dor e revoltado contra Deus, ele renuncia à própria fé e aceita uma maldição que o condena à imortalidade.
Séculos depois, agora conhecido como Drácula, ele atravessa o tempo acreditando que um dia reencontrará sua amada reencarnada. Quando conhece Mina, uma jovem idêntica à sua falecida esposa, a obsessão pelo passado ressurge com força absoluta.
Mas o Drácula de Luc Besson utiliza essa estrutura clássica para deslocar o foco da narrativa. O interesse não está exatamente no reencontro romântico, mas no vazio emocional que impede Drácula de continuar vivendo sem transformar sua dor em prisão para os outros.

Talvez a decisão mais importante da adaptação de Dracula de Luc Besson seja entender que o horror aqui não nasce do vampirismo em si. Ele nasce da recusa em aceitar o tempo.
Luc Besson constantemente transforma Drácula em alguém emocionalmente preso a um momento específico da própria existência. O personagem não atravessa séculos porque deseja poder ou dominação. Ele atravessa séculos porque não consegue abandonar a ideia de que ainda existe algo a recuperar.
E isso muda completamente o significado do monstro.
O vampiro deixa de simbolizar apenas morte ou sedução. Passa a simbolizar permanência emocional. A incapacidade humana de permitir que certas dores terminem.
Caleb Landry Jones transforma exagero em tragédia emocional

Caleb Landry Jones interpreta Drácula de maneira quase como se estivesse em uma ópera. Tudo em sua atuação parece ampliado: o olhar, os gestos, a dor, a teatralidade da voz. Em outro filme isso talvez soasse excessivo demais, mas aqui combina perfeitamente com a proposta de Luc Besson.
Seu Drácula não quer parecer ameaçador e sim devastado.
E isso faz diferença.
Existe algo profundamente cansado no personagem, como alguém emocionalmente exaurido por séculos de espera. Jones transforma a figura clássica do vampiro em alguém permanentemente aprisionado na própria memória.
Zoë Bleu funciona muito mais como presença simbólica do que como personagem tradicional. Mina e Elisabeta parecem existir quase como projeções emocionais da obsessão de Drácula de Luc Besson, reforçando a ideia de que ele talvez nunca tenha amado verdadeiramente uma pessoa – apenas aquilo que ela representava para ele.
Já Christoph Waltz, embora seguro como sempre, entrega um personagem, ao meu ver, menos impactante do que poderia, parecendo reprisar outras atuações. Sua presença funciona mais como estabilidade narrativa em meio ao excesso visual e emocional do filme do que como contraponto realmente marcante.
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Um filme que dividiu a crítica, mas encontrou público justamente pelo romantismo
A recepção de Drácula: Uma História de Amor Eterno (2026) dividiu o circuito cinematográfico. Enquanto o filme amargou 54% de aprovação dos especialistas no Rotten Tomatoes, o público o abraçou com 82% de avaliações positivas, impulsionando uma bilheteria global de US$ 42,4 milhões.
Pelo lado negativo, parte da crítica massacrou o Dráculo de Luc Besson, classificando a produção como um “exagero e cafonice extrema“, criticando duramente o roteiro como absurdo e as escolhas dramáticas da narrativa. Por outro lado, parte defende o filme de forma calorosa. A coragem do diretor em entregar uma abordagem mais profunda, transformando o monstro clássico em um vampiro trágico em busca de redenção é o ponto alto para quem gostou do longa.
E isso faz sentido, porque o filme funciona muito mais na emoção do que na lógica.
Um romance onde amar alguém significa lentamente apagar a si mesmo
A crítica Drácula: Uma História de Amor Eterno (2026) provavelmente dividirá muita gente justamente por não ter vergonha do excesso. Luc Besson filma o romance como se estivesse construindo uma ópera gótica. Os cenários gigantescos, os figurinos carregados, os vermelhos intensos e a trilha grandiosa fazem o longa parecer permanentemente preso entre sonho, delírio e peça teatral.
E sinceramente? Funciona melhor quando aceitamos isso.
O mais interessante da versão de Drácula de Luc Besson é que aqui ele parece constantemente questionar a romantização da devoção absoluta. Drácula acredita estar lutando por amor, mas o filme sugere outra coisa. Sugere dependência, e a incapacidade de existir sozinho. Sugere alguém tão preso à ideia de reencontro que deixa de construir qualquer identidade fora dela.
E isso aproxima muito o longa de outras releituras recentes sobre amores destrutivos, como a nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell. Nos dois casos, o sentimento deixa de funcionar como conexão e passa a operar como aprisionamento emocional.
Não existe liberdade nesses relacionamentos.
Existe fusão, que quando se apresenta como absoluta, inevitavelmente destrói alguma coisa no caminho.
Vale a pena assistir Drácula: Uma História de Amor Eterno (2026)?

Já adianto que vale – principalmente se você aceitar entrar no filme menos esperando horror clássico e mais preparado para um romance gótico melancólico sobre obsessão emocional.
O Drácula de Luc Besson deixa claro que o diretor não queria reinventar o vampiro através do medo. O interesse dele está em humanizar o monstro ao ponto de transformar sua maldição em consequência direta da incapacidade de lidar com perda.
Isso certamente vai afastar quem busca algo mais sombrio ou fiel ao terror tradicional, mas existe algo genuinamente interessante nessa abordagem. Porque o filme entende que algumas pessoas não são destruídas pelo ódio e sim pelo excesso de apego.
Final explicado — o momento em que Drácula finalmente entende que amar também significa deixar partir
O final do filme funciona justamente porque rompe com a lógica possessiva que guiou Drácula durante séculos.
Durante toda a narrativa, ele acredita que amar significa recuperar. Reivindicar. Permanecer. Mina existe para ele quase como continuação de Elisabeta, não como indivíduo próprio.
Mas o desfecho desmonta isso.
Quando decide aceitar a própria morte para impedir que Mina seja consumida pela mesma maldição, Drácula finalmente compreende algo que parecia incapaz de entender durante toda sua existência: continuar insistindo naquela ligação significaria destruir completamente a pessoa que ele dizia amar.
E quando Mina após ter se reconhecido como a reencarnação de Elisabeta questiona incrédula sobre a decisão, e Drácula responde simplesmente: “porque eu te amo”.
E talvez nenhuma frase explique melhor o sentido do filme, porque aqui o amor finalmente deixa de se manifestar na posse e passa a existir na renúncia.
A imagem final sugerindo a reconciliação espiritual entre Vlad e Elisabeta no plano aberto sobre o castelo funciona menos como recompensa romântica e mais como encerramento simbólico de alguém que finalmente aceita parar de lutar contra o tempo.
O que fica depois da eternidade?
Drácula de Luc Besson revela um filme menos interessado em vampiros do que em pessoas incapazes de aceitar a perda. Ele é transformado em uma figura profundamente melancólica, alguém que confunde amor com permanência e devoção com incapacidade de seguir em frente.
E talvez seja justamente isso que torne essa adaptação mais triste do que assustadora.
Porque no fim, o verdadeiro horror nunca esteve na imortalidade.
Esteve na impossibilidade de deixar alguém partir.
Nota: 7/10 – Poético, sombrio e doloroso
Ficha Técnica
Título: Drácula: Uma Historia de Amor Eterno
Título Original: Dracula: A Love Tale
Ano: 2025 | Duração: 129 min
Gênero: Terro, Fantasia, Romance Gótico
Direção e Roteiro: Luc Besson
Elenco: Caleb Landry Jones, Christoph Waltz, Zoë Bleu Sidel, Matilda De Angelis, Guillaume de Tonquédec e mais
Onde Assistir: Telecine (via Globo Play)



