Transitando entre a sobrevivência primitiva e o isolamento tecnológico, Em Um Piscar de Olhos, o novo longa de Andrew Stanton não é apenas uma ficção científica de três épocas; é um inventário sobre o que resta de nós quando o tempo decide avançar. Através de uma montagem que respira pelo silêncio, o filme traz uma reflexão de que, embora a humanidade mude suas ferramentas, o peso de uma perda ou o nascimento de uma conexão permanecem imutáveis.
O filme acompanha três núcleos. No passado remoto, uma família “pré-histórica” enfrenta perda e sobrevivência num mundo que ainda não tem linguagem como a gente conhece. No presente, Claire (Rashida Jones) tenta equilibrar carreira, cuidado com a mãe e um começo de amor com Greg (Daveed Diggs) numa vida interrompida por telas e obrigações. No futuro, Coakley (Kate McKinnon) viaja em missão de longa duração para manter a humanidade viva depois que a Terra se tornou inabitável.
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- 1.1 E se o tempo mudasse tudo, menos o que a gente sente?
- 1.2 Leia também
- 1.3 Em Um Piscar de Olhos | Vale à Pena?
- 1.4 Em Um Piscar de Olhos | Final Explicado
- 1.5 O que o final diz sobre culpa, liberdade e tecnologia
- 1.6 Ficha Técnica
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E se o tempo mudasse tudo, menos o que a gente sente?
Em um Piscar de Olhos aposta numa ideia enorme e quase inocente: três histórias separadas por milênios se cruzam para provar que medo, amor, coragem e insegurança atravessam passado, presente e futuro, como uma herança invisível. Uma jornada sobre conexão e ciclo da vida – e é exatamente essa “ambição humana” que define o que ele acerta e o que ele força.
Andrew Stanton que é muito conhecido pelo seu trabalho em “Wall-E” (2008), além de ter dirigido recentemente episódios das Séries “O Problema dos 3 Corpos” (2024), “For All Mankind”(2021-2022) e “Stranger Things” (2017), já demonstra que sempre teve queda por emoção em escala cósmica. Aqui ele traz a pré-história, presente e um futuro de colonização espacial como narrativa para estabelecer uma conexão transcendental.
O resultado é oscilante: tem momentos em que o filme encosta bem pertinho da gente, e outros em que parece tentar explicar demais o próprio conceito antes de deixar a história respirar.
Em Um Piscar de Olhos traz um detalhe bonito e também reconhecível para os fãs de This Is Us que está na sincronia entre som e montagem quando o filme troca de núcleo. Às vezes, uma mesma textura sonora serve de ponte para épocas distintas, como se o corte dissesse: “mudou o cenário, mas a emoção é a mesma”. Essa é a cola invisível que faz a experiência funcionar mesmo quando o roteiro está espalhando peças demais.
A trilha de Thomas Newman reforça esse impulso de “grandeza emocional” — e parte da crítica enxerga exatamente aí um problema e uma virtude: para alguns, ela amplia o sentimento; para outros, ela empurra a emoção com força demais.
O elo entre as histórias não é só “quem está ligado a quem”. É o sentimento repetindo, em roupas diferentes.
Dos três núcleos, o do presente me pegou mais, porque é ali que o filme fica mais reconhecível. Claire vive a vida moderna como uma prisão elegante: o celular interrompe, o trabalho suga, a família puxa, e o amor tenta nascer no meio de toda essa bagunça.
E o filme tem uma sacada atual: a tecnologia aparece como vilã e como tábua de salvação. Ela atrapalha a intimidade, mas também mantém relações vivas quando a vida obriga distância. Esse vai-e-vem é uma das ideias mais honestas do filme — e conversa com o que Jones e Diggs falaram em entrevistas sobre retratar um casal contemporâneo dentro de uma história sci-fi maior.
O núcleo pré-histórico funciona sem legenda porque a emoção traduz. A decisão de não legendar o idioma próprio do núcleo ancestral é um risco que, curiosamente, vira um dos pontos altos do filme, que confia ao espectador o entendimento do drama pelo gesto, pelo silêncio e pelo ritual – e isso funciona mesmo!
É aí que a fotografia se destaca, oscilando entre planos abertos para mostrar uma beleza exuberante e planos fechados para que fiquemos imersos na história diante da ausência de legenda e tradução: Nesse núcleo vemos a cultura nascendo como despedida, como música, como herança – uma flauta, um símbolo simples, algo que atravessa o tempo sem precisar de explicação.
O núcleo espacial é o mais “moral da história”. É também o mais desconfortável, porque encosta num medo muito atual: a sensação de prazo vencendo, de planeta gastando, de humanidade correndo atrás do prejuízo.
E aí entra o seu ponto mais forte: a relação “tecno-humana” entre Coakley e a Inteligência Artificial Rosco (Rhona Rees). O choque não está em existir uma IA; está em Coakley reconhecer nela a única amizade confiável e isso não é futuro – é o presente vestido de astronauta.
Só que, ao mesmo tempo, é o núcleo que mais sofre com a escrita “grande demais”: são ideias muito amplas e personagens muito genéricos, que acabam diminuindo o impacto.
Kate McKinnon vai bem apesar de um resistência à atrizes e atores que migram de gênero após terem se consagrado em outro, como é o seu caso – ainda tenho crises de risos constrangedores pela sua atuação divertida e sem noção em “Roses: Até que a Morte nos Separe (2025)”
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Em Um Piscar de Olhos | Vale à Pena?
Ao fim dessa jornada tripartida, Em um Piscar de Olhos confirma uma tese inquietante: a sobrevivência pode mudar de tecnologia, mas a emoção não muda de dono. Stanton nos entrega uma obra que, embora oscile em sua ambição de querer explicar o inexplicável, acerta ao mostrar que a família — seja em uma caverna ou em uma nave espacial — é a nossa estrutura mais violenta, necessária e tecnologicamente complexa.
Para quem busca uma narrativa linear, o filme pode soar como um experimento incompleto; para quem se permite sentir o tempo através do som ou da falta dele, é uma experiência arrebatadora sobre o que significa estar vivo
⚠️ AVISO DE SPOILERS | A partir daqui há spoilers
Em Um Piscar de Olhos | Final Explicado
O desfecho de Em um Piscar de Olhos não se contenta em ser um mero plot twist de montagem; ele se revela como uma confirmação temática da herança invisível que Stanton persegue desde o primeiro quadro. O elo físico entre as três eras — o “objeto-semente” que atravessa mãos e séculos — deixa de ser um artefato para se tornar um símbolo de que o legado humano não é composto apenas por genética, mas por emoção, cultura e memória.
A revelação de que as escolhas e pesquisas de Claire no presente são o combustível direto para a sobrevivência da missão de Coakley no futuro estabelece uma conexão retroativa profunda. O filme argumenta que alguém precisa habitar o “agora” com toda a sua dor e interrupções tecnológicas para que, milênios depois, a vida ainda tenha um lugar para onde voltar.
O que o final diz sobre culpa, liberdade e tecnologia
A imagem final de Coakley – uma figura imortal carregando úteros artificiais e plantas em busca de oxigênio funciona como a mensagem mais melancólica do filme, mesmo como a recompensa que o filme traz com um mundo novo, cheio da mesma natureza exuberante do passado. A relação com a IA Rosco transita de uma conveniência técnica para uma dependência emocional inquietante: em um mundo inabitável, a tecnologia não substitui apenas o ar, ela passa a substituir o vínculo.
É cruel pensar e imaginar que a existência da imortalidade através da ciência tenha sido utilizada para levar vida a outro planeta, porque imortais não conseguiram manter a vida em sua própria casa. E pior, a confissão de Coakley – com centenas de anos de vida – de que a IA Rosco foi sua única e verdadeira amiga depõe contra o seu uso e deixa a pergunta: até que ponto a inclusão da inteligência artificial é benéfica para as relações e emoções humanas?
O encerramento reafirma que a condição humana é cíclica. Não importa se estamos em uma caverna neandertal ou em uma nave estelar; os cenários mudam, as ferramentas evoluem, mas o medo da perda e a coragem do recomeço continuam sendo a única moeda de troca da nossa espécie.
No fim, a leitura que o filme confirma é a que não importa quanto tempo passe, a condição humana insiste em voltar aos mesmos lugares. A diferença é só o cenário – a sobrevivência muda de roupa, mas a emoção não muda de dono.
Nota: 8/10 – humano, ambicioso e oscilante.
Ficha Técnica
Título: Em Um Piscar de Olhos
Título Original: In the Blink of an Eye
Ano: 2026 | Duração: 94 min
Gênero: Drama | Ficção Científica
Direção: Andrew Satnton | Roteiro: Colby Day
Elenco: Rashida Jones, Kate McKinnon, Daveed Diggs, Jorge Vargas, Tanaya Beatty, Skywalker Hughes e mais
Onde Assistir: Disney+



