Frankenstein de Guillermo del Toro não olha para o mito apenas como um conto de horror. Ele olha para o espaço entre as pessoas. Para o que falta. Para o que machuca. Del Toro transforma a história em algo íntimo, onde o terror não vem da criatura, mas do abandono que a formou, mostrando que a dor não nasce do que ela é, mas do que nunca recebeu.
É um filme que pergunta, desde o início:
Quem é o verdadeiro monstro — quem é criado ou quem cria?
E Guillermo del Toro já fez disso uma assinatura: usar o fantástico para falar do humano — e, olhando sua filmografia, essa escolha não é exceção, é método. De O Labirinto do Fauno a A Forma da Água e Pinóquio, ele costuma deslocar o “monstro” do corpo para o afeto: o que assusta é o abandono, a exclusão, a falta de lugar. Em Frankenstein, ele verbaliza esse eixo com clareza ao tratar Victor e a criatura como “dois lados de um espelho”, uma relação pensada não só no texto, mas no diálogo visual entre os personagens.
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Criador e criatura como espelhos quebrados
Em Frankenstein, Guillermo del Toro revisita o clássico de Mary Shelley a partir do encontro entre Victor Frankenstein, um homem obcecado pelo ato de criar, e a criatura que nasce de sua ambição. Ambientado em um universo gótico e melancólico, o filme acompanha as consequências dessa criação — não como uma história de terror tradicional, mas como um drama sobre solidão, abandono e a busca desesperada por pertencimento, em que criador e criatura passam a refletir as mesmas feridas emocionais.
O olhar de Del Toro permanece fiel ao clássico, porém suas mudanças trazem algo essencial: um jogo de espelhos entre Victor Frankenstein e a criatura. Eles não apenas se refletem, mas quase afirmam ser a mesma pessoa. Essa aproximação visual e emocional cria um subtexto forte, justificando sentimentos tortuosos como os de Elizabeth, que oscila entre admiração, medo, sem contudo demonstrar compaixão que parece deslocada — mas perfeitamente lógica quando entendemos que criador e criatura carregam a mesma solidão.
Del Toro retorna ao ambiente gótico com sua marca registrada: sombras densas, texturas úmidas e corpos que parecem existir entre dois mundos. Ainda assim, nada disso existe apenas pela beleza. O estilo funciona como confissão, onde cada quadro é uma lembrança de que a criatura nasceu sem toque, sem voz e sem lugar.
Um filme sobre abandono, desejo e pertencimento
A força emocional de Frankenstein de Guillermo del Toro está na forma como ele transforma um mito sobre criação em uma reflexão sobre afeto. E também quando demonstra que a criatura não quer vingança, mas presença. Quer um rosto que a enxergue.
Del Toro constrói a narrativa para mostrar que o terror verdadeiro está no abandono, mas não apenas no silêncio, mas também no medo de ser visto pelo que se é. É uma leitura que encontra eco em qualquer pessoa que já se sentiu invisível, deslocada ou não-amada.
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Frankenstein | Por que assistir?
Porque Frankenstein de Guillermo del Toro é, acima de tudo, um filme sobre querer ser amado. Ele reimagina o mito sem perder o peso original, mas amplia sua alma. Ainda assim, é sombrio, sensível e doloroso sem perder a esperança.
É uma obra que fala com quem já se sentiu quebrado.
E que lembra que até monstros precisam de mãos estendidas.
Nota 9/10 — poético, devastador, profundamente humano
Ficha Técnica
Título: Frankenstein
Ano: 2025 | Duração: 149 min
Gênero: Drama | Ficção Científica | Terror
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro
Elenco: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth e mais
Onde Assistir: Netflix
