Existe uma guerra silenciosa acontecendo dentro de O Morro dos Ventos Uivantes (2026). E ela não está apenas entre Catherine e Heathcliff. Está entre o filme de Emerald Fennell e tudo aquilo que o público acredita que essa história deveria ser.
Porque essa adaptação não tenta preservar a imagem clássica que o imaginário popular construiu ao redor da obra de Emily Brontë. Pelo contrário. Em muitos momentos, ela parece quase provocar quem chega esperando reverência, sutileza ou fidelidade absoluta ao texto original.
E talvez seja exatamente por isso que o filme funcione melhor para quem entra nele sem essa bagagem.
Quanto menos você espera uma tradução literal do romance gótico tradicional, mais fácil perceber o que Emerald Fennell realmente está tentando fazer aqui: não adaptar o livro como objeto histórico, mas reinterpretar emocionalmente aquilo que ele provoca. Não existe preocupação em suavizar excessos ou transformar Cathy e Heathcliff em símbolos românticos. O filme remove qualquer idealização possível daquela relação e transforma obsessão em linguagem visual.
O resultado é uma experiência que certamente vai afastar parte dos fãs mais puristas – mas que encontra força justamente quando deixa de ser encarada como “a adaptação definitiva” e passa a funcionar como algo mais próximo de uma releitura febril sobre dependência emocional, desejo e autodestruição.
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- 1.1 Quando amar alguém significa desaparecer de si mesmo
- 1.2 Jacob Elordi e Margot Robbie transformam desejo em deterioração emocional
- 1.3 O amor como decomposição emocional
- 1.4 A prisão dos personagens dentro da obsessão dos protagonistas
- 1.5 Entre o fascínio visual e a rejeição dos fiéis
- 1.6 Leia também
- 1.7 O Morro dos Ventos Uivantes (2026) | Vale a pena assistir?
- 1.8 O Morro dos Ventos Uivantes | Final Explicado
- 1.9 O que sobra quando duas pessoas deixam de existir fora uma da outra?
- 1.10 Ficha Técnica
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Quando amar alguém significa desaparecer de si mesmo
O Morro dos Ventos Uivantes (2026) acompanha Catherine Earnshaw e Heathcliff, duas figuras emocionalmente inseparáveis cuja relação atravessa desejo, obsessão, ressentimento e destruição que não apenas se amam, eles se anulam.
Criados juntos em um ambiente isolado e emocionalmente instável, os dois desenvolvem uma conexão tão intensa quanto corrosiva. Mas, conforme o tempo passa e as diferenças sociais se tornam impossíveis de ignorar, a relação deixa de ser apenas paixão e passa a funcionar como um mecanismo de autodestruição mútua.
Emerald Fennell utiliza a estrutura clássica da obra de Emily Brontë como ponto de partida, mas desloca o foco para algo mais psicológico e contemporâneo: o momento em que amar alguém deixa de ser encontro e passa a ser anulação
Jacob Elordi e Margot Robbie transformam desejo em deterioração emocional
Margot Robbie interpreta Catherine como alguém permanentemente em conflito entre impulso e vazio. Existe uma instabilidade emocional constante em sua performance, como se a personagem estivesse sempre tentando preencher algo que nem ela entende exatamente o que é. Aliás, Margot parece ter se especializado em personagens conflituosas e complexas como em “Esquadrão Suicida (2026)” e “A Grande Viagem da Sua Vida (2025)”.
O resultado é uma atuação que transita entre fascínio e desconforto. Catherine nunca parece totalmente presente. Ela vive como alguém absorvida pela própria intensidade.
Jacob Elordi, por outro lado, talvez entregue o trabalho mais arriscado da carreira até aqui. Seu Heathcliff abandona qualquer tentativa de romantização clássica e se aproxima muito mais de uma figura destrutiva, quase animalesca em determinados momentos, encontrando até semelhanças com o monstro em Frankenstein. E o mais interessante é que Elordi nunca tenta suavizar isso para torná-lo “amável”.
Ele entende que o personagem não é perigoso porque ama demais e sim que é perigoso porque transforma amor em posse.
O amor como decomposição emocional
Existe uma ideia visual muito forte atravessando o filme de Emerald Fennell: tudo parece úmido, deteriorado, sufocado. As paredes, os corredores, os figurinos e a textura da casa não transmitem nenhum acolhimento. Longe de ser acidental, a direção de arte transforma o ambiente em uma extensão psicológica direta de Catherine e Heathcliff.
Nesta adaptação, o amor não aquece; ele corrói. A mansão deixa de ser apenas um cenário de época e passa a funcionar como um organismo contaminado pela obsessão doentia dos protagonistas. Essa escolha estética conversa diretamente com a tese central do longa: quando alguém condiciona sua existência à presença do outro, o resultado não é a plenitude, mas a destruição. O afeto deixa de construir identidade e passa a consumir qualquer possibilidade de sanidade.
Essa abordagem intensa ajuda a entender por que a produção divide tanto as opiniões. Emerald Fennell não tenta replicar o livro de forma literal, mas dialogar com ele por meio da provocação. Elementos como músicas contemporâneas, excesso visual e a sexualização constante reforçam o recado de que não se deve esperar fidelidade absoluta ao material original. Para quem busca uma leitura clássica, o filme soa estilizado e vazio; para quem aceita a proposta, ele captura a toxicidade real que sempre esteve no coração da obra de Emily Brontë.
A prisão dos personagens dentro da obsessão dos protagonistas
O mais curioso em O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é que os personagens secundários raramente parecem existir plenamente fora da órbita emocional de Cathy e Heathcliff. Emerald Fennell filma quase todos ao redor como pessoas já contaminadas por aquela relação antes mesmo de compreenderem sua dimensão.
Isso fica muito evidente em Isabella, interpretada por Alison Oliver. A personagem deixa de ser apenas uma vítima colateral do romance obsessivo e passa a carregar algo quase infantilizado e desconfortável, como alguém seduzido pela própria ideia de destruição. Existe uma estranheza constante na forma como ela observa Cathy – uma mistura de fascínio, inveja e desejo de pertencimento que torna sua presença muito mais perturbadora do que inocente.
Shazad Latif, como Edgar Linton, funciona quase como o símbolo de tudo aquilo que Heathcliff rejeita: estabilidade, racionalidade e controle. Mas o filme também parece pouco interessado em transformá-lo em contraponto moral verdadeiro. Em vez disso, ele surge como mais uma peça engolida pela intensidade emocional dos protagonistas.
Até Hong Chau, como Nelly, transmite a sensação de alguém assistindo lentamente à deterioração daquela casa sem jamais conseguir realmente impedir o que está acontecendo. E talvez seja exatamente essa a lógica da adaptação de Emerald Fennell: ninguém entra em contato com Cathy e Heathcliff sem sair emocionalmente deformado depois.
Entre o fascínio visual e a rejeição dos fiéis
O mais interessante dessa adaptação é que o filme parece constantemente em guerra com a própria ideia de romance. Em vários momentos, ele seduz visualmente o espectador para depois desmontar essa ilusão logo em seguida. A paixão entre Catherine e Heathcliff é intensa, sensual e arrebatadora – mas nunca segura. E talvez seja justamente por isso que a frase “E que nós dois sejamos condenados” fique reverberando depois dos créditos. Ela resume exatamente a tese central da direção: não existe futuro ali, apenas uma intensidade destrutiva.
Essa recusa em criar uma história de amor confortável explica por que a recepção ao longa foi tão polarizada quanto sua proposta estética. No Rotten Tomatoes, a produção continua dividindo opiniões, com 57% de aprovação da crítica contra 75% de aprovação do público. Grande parte das avaliações negativas veio justamente da rejeição às mudanças estruturais feitas por Emerald Fennell, gerando forte resistência entre os fãs mais fiéis ligados à obra original de Emily Brontë.
Por outro lado, as análises positivas destacaram a coragem estética da cineasta e a química magnética entre Margot Robbie e Jacob Elordi. O consenso que se desenha na crítica aponta para um fato inegável: mesmo quem odeia as liberdades criativas tomadas pela diretora dificilmente consegue ignorar o impacto visual da produção. O filme se recusa a ser uma cópia segura, preferindo o risco de ser odiado ao tédio de ser esquecido.
Leia também
O Morro dos Ventos Uivantes (2026) | Vale a pena assistir?
Vale desde que você aceite assistir ao filme de Emerald Fennell como uma interpretação emocional da obra, e não como uma tentativa de reproduzi-la fielmente.
Porque quanto maior for o apego à imagem clássica construída ao redor de Cathy e Heathcliff, maiores são as chances de rejeição. O filme constantemente desafia essa expectativa através do excesso visual, da sexualidade explícita, da trilha contemporânea e da forma quase agressiva como transforma romance em obsessão.
Mas existe algo interessante nisso.
Emerald Fennell parece entender que adaptar um clássico não deveria significar mumificá-lo. E talvez por isso o longa funcione melhor para quem chega sem precisar comparar cada escolha ao livro original. Nessas condições, o filme deixa de parecer uma afronta ao texto de Emily Brontë e passa a revelar algo mais interessante: uma releitura sobre pessoas que confundem amor com desaparecimento emocional.
⚠️ AVISO DE SPOILERS | A partir daqui há spoilers
O Morro dos Ventos Uivantes | Final Explicado
Emerald Fennell troca o “amor eterno” pela permanência do vazio
O final de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) funciona quase como uma provocação direta à ideia de romance trágico que sempre acompanhou Cathy e Heathcliff. Emerald Fennell não parece interessada em transformar os dois em almas destinadas uma à outra. O que ela faz é muito mais cruel.
Ela interrompe a história exatamente no momento em que tudo deixa de parecer paixão e passa a revelar apenas desgaste.
Diferente do livro original, o filme elimina praticamente toda a segunda metade da narrativa e encerra sua trajetória logo após a morte de Catherine. Não existe continuidade geracional, não existe reconciliação futura e nem qualquer sensação de equilíbrio emocional surgindo depois da destruição.
E isso muda completamente o significado do desfecho.
Heathcliff não morre. O filme não está interessado em concluir sua trajetória física. O que Emerald Fennell parece querer mostrar é algo mais desconfortável: a percepção de que, sem Catherine, não sobra nele nenhuma identidade própria capaz de sustentar sua existência emocional.
A sequência final não funciona como libertação romântica, mas como exposição do vazio. Heathcliff chega tarde demais, encontra apenas o corpo de Cathy e permanece cercado por tudo aquilo que os dois destruíram ao longo da própria obsessão.
E talvez essa seja a decisão mais interessante da adaptação.
Ao encerrar a história antes da redenção presente no livro de Emily Brontë, Emerald Fennell remove qualquer possibilidade de cura simbólica. O amor não transcende. Não amadurece. Não encontra paz.
O que permanece é apenas a deterioração emocional deixada por duas pessoas que passaram tanto tempo tentando existir uma através da outra que nunca aprenderam a existir sozinhas.
O que sobra quando duas pessoas deixam de existir fora uma da outra?
O Morro dos Ventos Uivantes (2026) revela um filme menos interessado em adaptar Emily Brontë de forma clássica e mais empenhado em reinterpretar emocionalmente aquilo que a obra desperta.
E isso inevitavelmente cria uma ruptura.
Quem busca fidelidade provavelmente encontrará exagero, artificialidade e excesso. Mas quem aceita entrar na proposta de Emerald Fennell sem transformar o livro em régua constante talvez encontre algo mais interessante: uma leitura moderna sobre obsessão afetiva, dependência emocional e o perigo de condicionar completamente a própria identidade à existência de outra pessoa.
No fim, talvez o filme funcione melhor justamente porque não tenta competir com o clássico.
Ele prefere ser uma experiência própria. E isso exige um tipo diferente de entrega do espectador.
Nota: 8/10 – Hipnótico, excessivo e incômodo
Ficha Técnica
Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Título Original: Wuthering Heights
Ano: 2026 | Duração: 136 min
Gênero: Drama, Romance Gótico, Thriller Psicológico
Direção e Roteiro: Emerald Fennell
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif e mais
Onde Assistir: HBO Max



