Crítica: Amores à Parte (2025): A comédia adulta que ri do ego e da vergonha masculina

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Você já sentiu que o seu relacionamento “perfeito” muitas vezes precisou ser pautado pela aprovação dos outros para se encaixar no “padrão”? Amores à Parte (Splitsville) é o tipo de comédia que ri do nosso próprio constrangimento social e da nossa necessidade de aplauso pela imagem de liberdade.

O filme, que acabou de chegar ao Prime Video após ser destaque no Festival de Cannes no ano passado e com 84% de aprovação de público e crítica no Rotten Tomatoesevita o debate moral sobre não-monogamia para focar no que realmente interessa: a hipocrisia humana.

A obra marca o retorno de Michael Angelo Covino à direção desde o aclamado  (A Subida, 2019). Aqui, o diretor usa a premissa de um casamento aberto como um detonador para expor a vergonha, o ciúme e a dificuldade de crescer emocionalmente.

Crítica de Amores à Parte (2025)
Adria Arjona e Kyle Marvin em cena de "Amores à Partes"

A premissa é simples e eficiente: Ashley (Adria Arjona) pede o divórcio de Carey (Kyle Marvin). Desesperado, Carey busca refúgio e conselho com os amigos Julie (Dakota Johnson) e Paul (Covino), que revelam que a “fórmula” do casamento deles é aberta. A história desanda no momento em que alguém cruza a linha de conduta não verbal estabelecida pelo grupo. A narrativa nos guia pela espiral do ciúme, levantando a dúvida: a ameaça à relação é real ou é o medo de não ser suficiente, de repetir os erros do passado? É um filme que usa os absurdos e diálogos ácidos para mostrar o que quer.

O prazer do roteiro está em expor como as pessoas se vendem como modernas e evoluídas, enquanto agem movidas por ciúme e autoestima ferida. Por isso, o riso quase sempre vem com um microconstrangimento junto.

A direção de Covino encena conversas como se fossem esportes de contato: cada frase é uma tentativa de manter o controle da própria imagem. Essa estética naturalista, com uma iluminação que parece real e sem filtros exagerados, faz o tempo parecer correr dentro do corpo dos personagens. O ritmo é bom, não é arrastado e a direção se utiliza de um jogo de câmeras em plano sequência que faz o tempo passar na história de uma forma original e sutil.

Crítica de Amores à Parte (2025)
Dakota Johnson e Kyel Marvin em cena de "Amores à Parte"

As atuações são o ponto mais forte da obra. Kyle Marvin, que assina o roteiro juntamente com Covino, é o centro emocional surpreendente, criando empatia sem pedir desculpas. Você pode até tentar rejeitá-lo mas para todo lado que você olha você o encontra, até para baixo!

Dakota Johnson que veio da comédia romântica que dividiu opiniões, mas que para mim agradou (Amores Materialistas, 2025) sai de protagonista para servir como uma espécie de âncora, segura e magnética. Diferente de Adria Arjona (Assassino por Acaso, 2023), que é quem injeta coragem na tela e deixa a gente com um gostinho de que poderia ter sido melhor aproveitada. Mas ok, aqui o foco é a versão deles, e aceitamos isso desde o início. 

No elenco de apoio, o destaque vai para David Castañeda (The Umbrella Academy, 2019-2024), que interpreta “Fede”, é um alívio cômico que funciona em todas as cenas. 

Por baixo da comédia, o centro de gravidade é direto: a vergonha manda mais na vida íntima do que o desejo. O filme sugere que muita gente não quer liberdade; quer aplauso pela imagem de liberdade. A amizade masculina, aqui, funciona como pacto de validação.

A obra pode dividir opiniões. Quem espera uma comédia romântica leve ou lições de moral sobre relacionamentos abertos pode se frustrar. O filme é para quem gosta de humor sarcástico sobre a vida a dois e para quem curte sair do filme com perguntas.

Não é um filme para quem se incomoda com nudez e abordagens que desviam do padrão tradicional de relacionamento

⚠️ ATENÇÃO | A partir daqui há spoilers

O grande trunfo de Michael Angelo Covino em Amores à Parte não reside na premissa da troca de casais, mas na forma como ele subverte a expectativa de libertação. O desfecho opera uma inversão temática crucial: a tão almejada “liberdade” não surge como cura para as inseguranças crônicas dos protagonistas, mas sim como um solvente que dissolve as fachadas sociais, expondo a fragilidade de quem busca nas escolhas externas uma anestesia para o vazio interno.

O título original, Splitsville, revela-se aqui uma metáfora semântica astuta. Deixa de designar apenas o ato geográfico ou jurídico da separação para habitar um estado mental. No clímax da narrativa, quando as estruturas relacionais racham irremediavelmente, o que emerge não é uma métrica de quem amou mais, mas um diagnóstico de resistência emocional: sobrevive quem suporta a agonia de ser visto sem máscaras.

A sequência da briga na casa do lago é o coração da obra. Em uma mistura de tapas contidos para golpes de luta livre e uma sequencia de perseguição desengonçada e destruidora pelos cômodos lindíssimos da casa, e que lembra muito a cena da briga em “Os Roses: Até que a Morte os Separe (2025)”, é o retrato fiel da reação masculina mais primitiva quando não sabe o que fazer diante de uma frustração perante outro do mesmo sexo. É a vergonha masculina despida sem qualquer cerimônia.

Mas essa vergonha que alcança o ego vem carregada de detalhes sutis que entregam que muitas vezes a atitude é a única possível em amizades como a de Carey e Paul e você percebe isso quando ouve a repetição do “sem morder!”, mostrando que, mesmo no ápice da raiva, existe um pacto de cuidado. Eles querem extravasar, mas não querem se destruir. É o retrato de uma amizade que, no limite, consegue ser mais sólida do que as crises dos casamentos.

Crítica de Amores à Parte (2025)
Kyle Marvin e Michael Angelo Covino em cena de "Amores à Parte"

Amores à Parte | Por que assistir?

O que faz Amores à Parte valer o tempo investido é a coragem de olhar para o fracasso de um casamento sem aquele peso dramático insuportável. O filme entende que, às vezes, a única forma de sobreviver ao fim de um ciclo é abraçando o ridículo da situação. Ele não tenta vender uma lição de moral certinha; em vez disso, joga no ventilador as nossas inseguranças sobre fidelidade, amizade e a pressão social de “ser feliz para sempre”.

A grande sacada aqui é como a história trata a separação como um rito de passagem necessário, e não como uma tragédia. É um filme sobre pessoas reais tentando desesperadamente se encontrar enquanto tudo ao redor parece desmoronar, mostrando que a liberdade de estar sozinho (ou de estar junto de um jeito diferente) pode ser tão libertadora quanto assustadora. No fim, você sai com a sensação de que está tudo bem não ter todas as respostas, desde que você consiga rir da própria confusão no caminho.

Nota 9/10 | Irreverente, honesto e incômodo.

Ficha Técnica

Título: Amores à Parte | Título Original: Splistville

Ano: 2025 | Duração: 100 min

Gênero: Comédia

Direção: Michael Angelo Covino

Roteiro: Michael Angelo Covino e Kyel Marvin

Elenco: Dakota Johnson, Adria Arjona, Kyle Marvin, Michael Angelo Covino, David Castañeda e mais

Onde Assistir: Prime Video

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