Crítica | Harpia: Presença Maligna (2024) final explicado do terror psicológico sobre luto e maternidade da HboMax

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Harpia Presença Maligna (The Beldham) é um filme que nos convida a uma viagem incômoda, um mergulho em águas profundas onde o terror não vem de sustos fáceis, mas do que escolhemos esconder dentro de nós. O longa, que teve sua estreia mundial no Sitges International Film Festival em 2024, mas que chegou ao Brasil somente no início deste ano na HBO Max, se disfarça de suspense sobrenatural para nos entregar um thriller psicológico autêntico sobre o luto materno e os traumas familiares que, de tão pesados, se tornam quase físicos. Se você espera um terror padrão, prepare-se para ser surpreendido por uma reviravolta final que ressignifica cada segundo da experiência.

O filme começa na casa de Sadie (Patricia Heaton), mão de Harper (Katie Parker), uma mãe solo visivelmente abalada, que busca um recomeço com seu bebê recém nascido. O que encontra, no entanto, é uma atmosfera de melancolia e uma suposta presença ameaçadora focada na criança. A narrativa, um estudo de personagem, nos guia pela espiral de paranoia de Harper, levantando a dúvida: a ameaça é real ou é o medo de não ser suficiente, de repetir os erros do passado?

Ainda que comece estabelecendo essa atmosfera clássica e envolvente, Harpia Presença Maligna revela-se um exercício de paciência. A história me prendeu no início, mas confesso que o ritmo incomodou em alguns momentos. O longa começa bem, mas da metade para o fim, entra em uma série de cenas e diálogos lentos e repetitivos com flashbacks e alucinações que acabam cansando e confundindo o espectador sobre a trama principal. É um filme que pede uma atenção e concentração extra.

A direção de Angela Gulner usa o minimalismo a seu favor. O filme é praticamente todo em ambientes internos, muito escuros, o que cria uma sensação de claustrofobia e pressão quase constante. Essa escolha estética, com uma paleta de cores frias e dessaturadas, não é apenas visual; ela serve para acentuar a melancolia e o distanciamento emocional que permeiam a trama.

Essa oscilação de ritmo é compensada pelo magnetismo do elenco. As atuações são, de longe, o ponto mais forte. A paranoia de Katie Parker, já conhecida do gênero desde “Absentia” (2011) e mais recentemente das séries de Mike Flanagan da Netflix “ A Maldição da Residencia Hill” (2018), “A Maldição da Mansão Bly” (2020) e “A Queda da Casa de Usher” (2023) é quase contagiosa; você realmente embarca na confusão e acredita que algo de muito errado está acontecendo.

Crítica | Harpia Presença Maligna
´Katie Parker em cena de Harpia: Presença Maligna

Patricia Heaton, conhecida por interpretar a mãe americana na série “Raymond e Companhia” (1996-2005), aqui brilha em um papel diferente do habitual, ainda como mãe, mas crescendo ao ponto de terminar como uma personagem totalmente diferente da que começou. Há uma química palpável entre as atrizes, o que faz os diálogos soarem genuínos, ainda que curtos e confusos, salvando a narrativa nos momentos de maior lentidão.

Em entrevista ao portal Script, Gulner revelou que baseou a história em experiências pessoais, observando a transição geracional e os efeitos do envelhecimento na própria família. Ela usou essa dor do ciclo de amor e perda como ponto de partida, o que adiciona uma camada de autenticidade à obra. Por trás da fachada de terror, o filme é, na verdade, uma reflexão crua sobre como as pessoas lidam (ou não conseguem lidar) com a perda e o peso dos traumas que se tornam nossos próprios demônios.

Embora o material de divulgação sugira um terror sobrenatural convencional, a obra que é reconhecida pela abordagem de “quebra-cabeça assustador”, prefere explorar a psique danificada. O horror aqui é um veículo para discutir saúde mental e controle materno.

A obra pode dividir opiniões. Quem espera um filme de terror focado no sobrenatural, com sustos e tensão a todo instante, pode se frustrar. O filme é para quem gosta de finais com reviravolta e para quem curte terminar com perguntas, querendo reassistir para caçar detalhes.

Crítica | Harpia Presença Maligna
Patricia Heaton em cena de Harpia: Presença Maligna

⚠️ ATENÇÃO | A partir daqui há spoilers

A Revelação: A Fronteira entre o Sobrenatural e a Psicose

A grande virada de Harpia: Presença Maligna subverte as convenções do gênero ao revelar que o verdadeiro monstro não habita as frestas das paredes, mas o interior de uma mente estilhaçada. O que até então o espectador interpretava como uma invasão sobrenatural externa revela-se, na verdade, um surto psicótico profundo de Harper.

O filme constrói meticulosamente essa ilusão: cada ruído estranho e cada vulto que ameaça o bebê são projeções de uma culpa latente e de uma negação paralisante. Ao “sobrenaturalizar” o trauma, a direção nos força a experimentar a mesma desconexão com a realidade que a protagonista vive, transformando o que parecia ser um filme de assombração em um estudo de caso clínico devastador sobre a fragilidade da psique humana diante de perdas insuportáveis. É nesse colapso da realidade que o título original ganha seu peso semântico mais sombrio.

O Significado do Título: "The Beldham"

O título original, The Beldham, carrega um peso semântico que a tradução nacional “Harpia” tenta sintetizar. O termo é uma variação arcaica de Beldam, palavra usada para descrever uma mulher velha, uma bruxa ou uma criatura folclórica com características de pássaro que se alimenta da pureza de recém-nascidos.

Angela Gulner vai além do folclore ao conectar o nome à expressão francesa “La Belle Dame sans Merci” (A bela dama sem misericórdia). Essa dualidade é o coração do filme: a entidade que deveria representar o cuidado materno e a proteção torna-se uma figura implacável e destrutiva. No longa, a “Beldham” é a personificação da depressão pós-parto e da herança de traumas que “arrebatam” a sanidade da mãe, transformando o refúgio familiar em um terreno de caça psíquico.

O Ciclo Sem Fim

Quando Harper recobra a consciência e pergunta a Sadie se ela a abandonou novamente, o filme entrega sua tese mais cruel: aquela não foi a primeira crise e, certamente, não será a última. O trauma, assim como a bruxa arcaica do título, não oferece cura, apenas uma trégua temporária. A sequência após toda a recapitulação dos acontecimentos como de fato aconteceram, nos levam até a cena final no jardim, diante do túmulo de Christine, que acontece enquanto os créditos sobem, em que as personagens se alternam entre presente e passado, real e ilusão, nos mostram que a filha que Harper perdeu e cuja dor não conseguiu processar, sela o destino trágico da família.

Harpia Presença Maligna | Por que assistir?

O filme vale pelo final. Ele faz com que o espectador veja toda a história sob outra perspectiva. No entanto, o ritmo lento pode impactar a experiência, pois a obra exige atenção e concentração acima da média.

Nota 7/10 | devagar, surpreendente, e traumático

Ficha Técnica

Título: Harpia Presença Maligna | Título Original: The Beldham

Ano: 2024 | Duração: 101 min

Gênero: Terror

Direção: Angela Gulner

Roteiro: Angela Gulner

Elenco: Katie Parker, Patricia Heaton, Emma Fitzpatrick, Corbin Bernsen e mais

Onde Assistir: HboMax

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Este post tem um comentário

  1. Marta Cândido

    Sinceramente meu tempo é tão precioso e no início do filme criei grandes expectativas
    ..tempo jogado fora…o título deveria ser “DRAMA” não “TERROR”

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