É fácil cair na armadilha de achar que Dele & Dela é “só mais um” thriller de cidade pequena. O começo ajuda: tem corpo, tem culpa, tem passado enterrado, e tem aquela sensação de que todo mundo sabe mais do que diz.
Em Dele & Dela, um assassinato numa cidade pequena reabre feridas que ninguém quer tocar. Anna, uma jornalista que passou anos longe, é puxada de volta para cobrir o caso justamente quando o ex-marido, o detetive Jack, assume a investigação. Quanto mais eles avançam, mais o crime parece ligado ao passado — e a série transforma o que deveria ser uma apuração objetiva num duelo de versões, culpa e sobrevivência emocional.
A assinatura de direção de William Oldroyd, conhecido por “Lady Macbeth” (2016), aparece justamente no que é contido. Em vários momentos, a série não precisa correr: ela só aproxima o rosto, deixa a pausa crescer e faz o silêncio virar acusação.
Aí vem o salto porque o mesmo roteiro que sabe ser íntimo também gosta de empilhar viradas. E quando essa pilha cresce demais, o mistério continua viciante, mas a verossimilhança começa a pedir ar.
Dele & Dela ficou em #1 na lista de TV em inglês da Netflix, com 19,9 milhões de views na semana do Top 10 de 5 de janeiro de 2026.
Já a crítica veio mais fracionada. No Metacritic, a temporada marca 53/100, enquanto que no Rotten Tomatoes, a minissérie conta com 67% de aprovação da crítica contra 61% do público, o que mostra que é uma produção que trouxe mais perguntas do que respostas.
Essa mistura faz sentido com a experiência: Dele & Dela é daquelas séries que prendem fácil, mas nem sempre parecem confiar na própria força e por isso apertam o acelerador quando o suspense já estava funcionando.
O melhor da história não é o crime em si; é o ex-casal no centro dele. Anna (Tessa Thompson) e Jack (Jon Bernthal) carregam uma intimidade velada que volta a respirar quando a investigação encosta no passado.
A Netflix vende a série com a ideia de “dois lados para cada história”, e isso não é só slogan. A própria autora Alice Feeney descreve o impacto de ver os personagens ganhando corpo no set, como se “tivessem vindo à vida”.
Dele & Dela vive do atrito de duas versões e toda verdade aqui vem com uma nota de rodapé, o que exige muito do convencimento das atuações dos protagonistas.
Bernthal funciona porque dá peso ao desconforto. Ele não atua “para parecer misterioso”; ele atua como alguém que está sempre prestes a explodir por exaustão e isso é muito humano. Já Thompson, entrega uma atuação enigmática de quem passou por um trauma e está tentando retomar o rumo da sua vida, mas com atitudes não lineares de sua personagem que muitas vezes não se justificam em tela.
O subtexto mais forte da série não é o “quem matou?”. É o modo como trauma molda memória, desejo e vingança e como uma cidade inteira pode participar do silêncio sem parecer culpada.
Esse é o ponto em que Dele & Dela cresce acima do entretenimento básico: por trás do mistério, há uma história sobre violência, culpa e a necessidade desesperada de controlar a narrativa para sobreviver.
A minissérie tem mão para tensão, elenco para carregar subtexto e uma estrutura de vício que a Netflix sabe fabricar bem.
O que impede Dele & Dela de ser grande o tempo todo é a mesma coisa que a deixa comentável: a escolha de esticar viradas até o limite do plausível. Ela vai do tenso ao exagerado e faz isso com convicção.
⚠️ A partir daqui há spoilers
O confronto final e a virada que perde lógica
A minissérie arma um truque clássico: coloca Lexy Jones (Rebecca Rittenhouse) como epicentro do perigo, cria uma sequência de ação eficiente e faz parecer que a temporada inteira estava caminhando para “ela é a mente por trás de tudo”. E, por alguns minutos, funciona.
O confronto final em que Lexy tenta atirar em Anna e descobre que está com uma arma sem munição é um dos raros momentos em que Dele & Dela deixa de ser só tensão psicológica e vira energia física. A cena tem ritmo, tem urgência, tem sensação de ameaça real. O problema é o que vem depois.
Quando a série revela que Lexy não está por trás dos assassinatos, a motivação dela para tentar matar Anna começa a parecer um encaixe frágil. É como se o roteiro precisasse desesperadamente de um “clímax de ação” antes do twist definitivo e usasse Lexy como instrumento, mesmo que a lógica emocional da personagem não sustente esse impulso até o fim.
Final explicado e por que a série parece forçar algumas peças
A revelação final confirma que Alice (Crystal R. Fox), mãe de Anna, é a assassina, e a série explica o motivo como uma mistura de luto, raiva e “amor distorcido”: ela mata para punir antigos cúmplices do trauma de Anna, que aqui já nos é revelado que foi vítima de estupro quando jovem, em um cena incômoda e pesada e, ao mesmo tempo, para tentar devolver à filha uma vida que nunca voltou ao lugar
A intenção dramática é clara: dizer que o maior horror não mora na rua, mora dentro de casa. Só que a execução cobra um preço, porque parte dos assassinatos e algumas decisões-chave dos personagens parecem acontecer mais para empurrar o mistério do que por necessidade interna da história.
Esse “empurrão” aparece também na narração do começo. O texto que depois se revela ser uma carta é lido várias vezes ao longo dos episódios, sempre com a função de contextualizar e reforçar tema. A repetição, porém, passa do ponto: em vez de aprofundar, ela sublinha e sublinhar demais, num thriller, enfraquece a confiança do público na própria narrativa.
E há ainda pontas que parecem propositalmente plantadas para manter dúvida, mas que ficam sem aterrissagem. A fala de Zoe (Marin Ireland), irmã de Jack quando diz a ele que Anna “não é quem ele pensa” e é interrompida por uma ligação — soa como gatilho para uma revelação maior. Só que essa linha não ganha conclusão lógica; fica como isca para o espectador imaginar que Anna poderia estar por trás de tudo, mesmo quando a história não entrega base suficiente para isso.
O mesmo vale para a forma como Anna é tratada. Ao longo da série, ela reage com sarcasmo e ironia, e em alguns momentos existe uma vilanização implícita como se o roteiro quisesse que o público desconfiasse dela. Mas essa desconfiança não se conecta bem aos “porquês”: seus motivos para voltar à cidade parecem mais profissionais (retomar a carreira) do que emocionais, e a minissérie não amarra com convicção um impulso de vingança que justificaria certos enquadramentos da personagem.
Jack, por outro lado, tem razões plausíveis para virar suspeito: passado, culpa, obsessão, e o tipo de comportamento que uma cidade pequena lê como “quem tem algo a esconder”. Com Anna, a série tenta fabricar suspeita por atmosfera, não por motivação e é aí que o final “vai do tenso ao exagerado”. A sensação não é que a revelação é impossível; é que ela chega com peças que nem sempre parecem ter sido colocadas por causa da história, e sim por causa do efeito.
No fechamento, a ideia é potente: algumas verdades não libertam, apenas mudam a forma do trauma. Só que o caminho até essa ideia sacrifica um pouco da credibilidade e é por isso que a série divide tanto. Ela vicia e entrega clímax, mas dá aquela sensação de que algumas reviravoltas foram “montadas” para chocar e não porque eram o único caminho emocional da história.
Dele & Dela | Vale a pena?
Vale, especialmente para quem gosta de mistério que vira vício rápido. A série sabe terminar episódios com o tipo de gancho que obriga “só mais um”.
O aviso é outro: o que começa tenso e elegante vai, aos poucos, flertando com o exagero. Em vez de deixar uma revelação amadurecer, o roteiro às vezes prefere atropelar para a próxima surpresa.
Quando dá certo, é delicioso — porque recontextualiza cenas e faz o espectador voltar mentalmente para entender o que viu. Quando dá errado, vira aquele suspense que parece dizer: “não confia em ninguém”, repetindo isso até perder impacto.
Nota 7/10 – viciante, sombria e excessiva.
Ficha Técnica
Título: Dele & Dela | Titulo Original: His & Her
Ano: 2026 | Episódios: 06 Duração: aprox. 40-46 min
Gênero: Mistério/Suspense/Drama
Criação: William Oldroyd
Roteiro: William Oldroyd, Tori Sampson, Bill Dubuque e
Dee Johnson
Elenco: Tessa Thompson, Jon Bernthal, Pablo Schreiber, Rebecca Rittenhouse, Sunita Mani, Marin Ireland, Chris Bauer e mais
Onde Assistir: Netflix
