“O Agente Secreto” (2025): o disfarce perfeito para contar outra história

Cena de "O Agente Secreto"

Há filmes que se escondem atrás de um gênero para contar o que realmente querem. O Agente Secreto faz exatamente isso. Usa o disfarce de um thriller, mas entrega algo muito mais profundo: um retrato íntimo da memória e da vida comum durante a ditadura. Essa escolha pode surpreender — e é justamente o que torna o filme tão vivo.

Cena de "O Agente Secreto"

Ambientado em 1977, durante a ditadura militar, seguimos Marcelo (Wagner Moura), um professor de tecnologia que vai para Recife, onde encontra sua família para fugir de um passado até então misterioso, mas encontra uma cidade cheia de vigilância e corrupção enquanto tenta lidar com a ameaça constante de ser descoberto.

O longa não corre. Ele observa. Ele respira. E enquanto isso, deixa a gente perceber como pequenas coisas do cotidiano eram atravessadas pelo medo. As pessoas tentavam seguir com a vida, mesmo quando tudo ao redor pedia cautela. Esse ritmo mais lento, que poderia incomodar em outro filme, aqui funciona como um convite para entrar nesse mundo pelos detalhes.

Kleber Mendonça Filho filma a normalidade com força. Cada gesto simples tem peso. Cada silêncio guarda algo que não se diz. E é assim, sem exagero, que o filme fala tanto sobre aquele período.

O Agente Secreto | Um homem comum vivendo o extraordinário

O protagonista é alguém com quem qualquer pessoa pode se identificar, mas ele não tenta ser herói, nem tenta resolver tudo sozinho. Ao menor sinal de perigo, ele faz o óbvio: procura a polícia, porque essa é uma reação real — quase anti-cinematográfica — mas que reforça o quanto O Agente Secreto prefere trabalhar com a vida real, não com fantasias de espionagem.

É aí que o “disfarce de thriller” fica mais claro. O filme não quer ação. Ele quer humanidade. E por isso, talvez seja um problema para os mais desavisados que se deixaram levar pela capa do livro e não pelo seu conteúdo. Confesso que não sou daqueles que não gostam de trailers ou de ler sinopses antes de dar o play, mas essa é uma mania pessoal que funciona para mim, apesar dos riscos, para permitir que a experiência seja a mais genuína possível diante de uma época que se fala e mostra muito mais sobre o antes e muito pouco sobre o depois.

Cena de "O Agente Secreto"

O Agente Secreto| A memória que desaparece nos detalhes

O ponto central do filme é a busca de um documento que apenas tinha que estar ali. No entanto, isso diz tudo sobre como a memória de um país se perde: não em grandes acontecimentos, mas em pequenos detalhes, falhas, omissões, sumiços que ninguém explica.

Assistir ao filme tendo vivido ou com alguém que viveu aquele período, sem dúvida é enriquecedor e eleva a experiência, porque o filme cresce muito nos detalhes. Nesse caso, fui com minha mãe, que há mais de 40 anos não entrava em uma sala de cinema porque a cidade onde escolheu viver e nos criar não tinha cinema, o que para mim particularmente fez a experiência da tela grande ser muito mais valorizada, porque era e ainda é sinônimo de privilégio.

E é no cinema de rua que boa parte da história se desenvolve, trazendo mais uma referência de algo que cada vez mais se tornará memória. Além disso, o filme brinca o tempo todo com as referências da época, seja nos filmes em cartaz, seja na foto da ginasta mais famosa do mundo estampada na parede da casa que ajuda a colocar o espectador naquele tempo, naquele país que tentava buscar normalidade enquanto escondia suas próprias feridas, revelando muito através desses detalhes que parecem simples, mas carregam camadas.

O Agente Secreto | As respostas que nunca chegam e as perguntas que ficam

É inegável que quando você se acostuma ao ritmo do filme e acha que a aventura vai ter início, você acaba surpreendido com uma virada que interrompe o seu raciocínio, quase que como uma pessoa que desaparece do dia para a noite, sem qualquer explicação. Aliás, algo muito comum naquela época. Mas é aí que você percebe que a aventura já tinha começado e talvez você até queira retornar um pouco porque não desfrutou o momento como deveria.

A sensibilidade com que o filme nos conta que certas histórias nunca terão um desfecho é impactante. Mas talvez, após ver a cena final, você nunca mais dirá a alguém que ela é a cara do pai ou da mãe sem antes pensar o que isso carrega. O que nós somos? Por que nós somos? e por quem nós somos?

O Agente Secreto | Por que assistir?

Porque O Agente Secreto é um filme que se disfarça de thriller para falar de memória, silêncio e vidas reais. Ele promete uma coisa e entrega outra — e justamente por isso tudo funciona. É um filme que cresce depois da sessão, que volta à mente dias depois, como uma lembrança que insiste em não ir embora.

Ele revela que os maiores segredos de um país não estão nos arquivos. Estão nas pessoas que viveram o que nunca foi dito.

Nota: 8/10 — atmosférico, humano, revelador.

Ficha Técnica

Título: O Agente Secreto | Ano: 2025 | 2h 38m  | Gênero: Drama / Suspense / Thriller Político |  Direção: Kleber Mendonça Filho | Roteiro: Kleber Mendonça Filho | Elenco: Wagner Moura, Carlos Francisco, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Udo Kier (e mais) | Distribuição: Vitrine Filmes (Brasil) / Port au Prince Films (Alemanha) / Ad Vitam (França)

O Agente Secreto | Onde Assistir?

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