Crítica | The Mastermind (2025): Kelly Reichardt usa Josh O’Connor para transformar um assalto em um retrato silencioso sobre privilégio e frustração

Josh O’Connor em cena de The Mastermind (2025), filme dirigido por Kelly Reichardt, ambientado nos anos 70, explorando tensão silenciosa e privilégio de classe.

The Mastermind começa como um filme de tensão e termina como um desconforto persistente. A sensação inicial de controle dá lugar a um esvaziamento progressivo, não apenas da narrativa, mas do próprio personagem, como se cada passo do plano revelasse menos sobre o crime e mais sobre uma vida moldada para nunca lidar com falhas reais.

Personagem de Josh O’Connor planeja um assalto em The Mastermind, filme contemplativo de Kelly Reichardt sobre frustração, escolhas e consequências

Lançado em 2025, The Mastermind marca mais um capítulo coerente na filmografia de Kelly Reichardt, diretora associada a um cinema autoral, contemplativo e silencioso, interessado menos em acontecimentos e mais nos efeitos emocionais que eles provocam. Disponível na Mubi, o filme se insere com naturalidade entre obras que recusam o conforto narrativo e apostam na fricção entre expectativa do público e proposta estética.

Ainda que dialogue com o suspense e até com a comédia em sua superfície, o filme rapidamente deixa claro que o gênero é apenas um ponto de partida — nunca o destino.

The Mastermind | Um plano minucioso que parece prometer mais do que entrega

A história acompanha um homem comum que decide assaltar um museu após arquitetar um plano detalhado, quase meticuloso. Tudo parece sob controle até que pequenos imprevistos, negligenciados desde o início, passam a conduzi-lo por uma jornada de arrependimento e consequências.

A sinopse poderia facilmente apontar para um filme de roubo tradicional, mas Reichardt opta por subverter essa expectativa. O assalto existe, mas jamais ocupa o centro emocional da narrativa. Ele funciona como catalisador, não como espetáculo.

The Mastermind | Depois que o filme para de fingir que é sobre crime

Por baixo da trama de assalto, The Mastermind fala sobre privilégios de classe e sobre a frustração de uma geração que não corresponde às expectativas da anterior — e que, muitas vezes, se acomoda. O protagonista carrega os efeitos de uma vida excessivamente protegida, onde errar nunca teve consequências reais.

Essa proteção, que à primeira vista soa como cuidado, se revela um entrave. O filme provoca uma reflexão incômoda: até que ponto blindar alguém do fracasso também o impede de amadurecer? A narrativa sugere que a incapacidade de lidar com frustrações não nasce do acaso, mas de uma educação que evitou conflitos a qualquer custo.

The Mastermind | Forma, silêncio e dispersão como escolha narrativa

Kelly Reichardt conduz o filme com uma mise-en-scène rigorosamente controlada. A câmera estática, os enquadramentos prolongados e a ausência de condução explícita obrigam o espectador a observar, não a consumir a narrativa. Muitas cenas se desenrolam enquanto notícias de televisão, conversas paralelas ou ruídos disputam atenção com a trama central, mas que serve para ambientar o espectador no tempo, deixando claro que a história principal se desenrola enquanto os acontecimentos políticos do mundo acontecem.

Essa escolha reforça a sensação de dispersão emocional do personagem. Nada parece plenamente enquadrado — nem o plano, nem a vida. A fotografia ambientada impecavelmente nos anos 70 não surge como fetiche, mas como atmosfera: um tempo em que tudo parecia possível, mas onde muitas promessas também ficaram pelo caminho.

Kelly Reichardt conduz o filme com uma mise-en-scène rigorosamente controlada. A câmera estática, os enquadramentos prolongados e a ausência de condução explícita obrigam o espectador a observar, não a consumir a narrativa. Muitas cenas se desenrolam enquanto notícias de televisão, conversas paralelas ou ruídos disputam atenção com a trama central, mas que serve para ambientar o espectador no tempo, deixando claro que a história principal se desenrola enquanto os acontecimentos políticos do mundo acontecem.

Essa escolha reforça a sensação de dispersão emocional do personagem. Nada parece plenamente enquadrado — nem o plano, nem a vida. A fotografia ambientada impecavelmente nos anos 70 não surge como fetiche, mas como atmosfera: um tempo em que tudo parecia possível, mas onde muitas promessas também ficaram pelo caminho.

The Mastermind | Atuações que funcionam pela contenção

Gaby Hoffmann em The Mastermind (2025), representando o confronto emocional e moral que o protagonista evita enfrentar.

Os personagens soam reais justamente porque não são explicados em excesso. Josh O’Connor (Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, 2025) entrega uma atuação silenciosa e convincente, sustentada por gestos mínimos e olhares que dizem mais do que qualquer diálogo. Ele reafirma por que é um dos atores mais interessantes do momento: não há esforço em tornar o personagem simpático, apenas reconhecível.

Alana Haim (Licorice Pizza, 2021), no papel de Terri, a esposa do protagonista, funciona quase como um reflexo do espectador. Sua incredulidade contida diante das atitudes inexplicáveis do marido traduz um desconforto que o filme se recusa a verbalizar. Essa sensação se completa com a presença de Maude, interpretada com coragem e franqueza por Gaby Hoffmann (Eric, 2022). Como esposa de Fred — vivido por John Magaro (Vidas Passadas, 2023), um amigo distante de James —, ela é quem verbaliza aquilo que o filme silencia: as perguntas, os julgamentos e a impaciência que temos vontade de direcionar ao protagonista, que ainda assim busca abrigo nesse vínculo como se nada tivesse acontecido.

As atuações funcionam emocionalmente justamente porque respeitam o tom do filme. Ninguém explode, ninguém se redime por completo. Tudo permanece em suspensão — como os próprios sentimentos que a obra insiste em não resolver para o espectador.

The Mastermind | Um filme que corre o risco de ser mal interpretado

O maior ponto de atrito do filme está no ritmo. O início, especialmente durante o planejamento do assalto, cria tensão e curiosidade. Há uma sensação de método, de engrenagem em movimento. Com o passar do tempo, porém, essa energia se dissipa.

A narrativa desacelera de forma acentuada e, em alguns momentos, parece travar. Ainda que esse ritmo arrastado seja uma marca assumida de Reichardt, ele pode frustrar espectadores que se envolveram com a premissa inicial e esperavam algum tipo de progressão dramática mais evidente.

Sim, The Mastermind é um filme que divide opiniões. O risco está em sua própria proposta: ao se apoiar em uma narrativa de roubo, o filme pode fazer com que sua crítica ao privilégio de classe fique em segundo plano para parte do público.

Para alguns, será um exercício belo e reflexivo. Para outros, uma experiência excessivamente lenta, distante e frustrante. O filme não tenta equilibrar essas leituras — e isso é, ao mesmo tempo, sua força e sua limitação.

Personagem de Josh O’Connor planeja um assalto em The Mastermind, filme contemplativo de Kelly Reichardt sobre frustração, escolhas e consequências

The Mastermind | O que permanece depois que tudo termina

O que fica não é o roubo, nem a fuga, nem o plano que falhou. O que permanece é a imagem de alguém que nunca aprendeu a lidar com o fracasso. The Mastermind ecoa como um retrato silencioso de uma geração protegida demais para saber cair — e, por isso mesmo, incapaz de se levantar.

É um filme que não se resolve nos créditos finais. Ele permanece como incômodo, não como resposta.

The Mastermind vale a experiência para quem não se satisfaz com histórias que entregam tudo, para espectadores interessados em decifrar entrelinhas e observar personagens mais do que acompanhar ações. É um filme para quem aprecia cinema contemplativo, onde o silêncio diz tanto quanto os diálogos e onde a frustração faz parte da proposta.

Não é indicado para quem busca ritmo acelerado, recompensas narrativas claras ou um filme de roubo tradicional. A experiência aqui é mais sensorial e reflexiva do que envolvente no sentido clássico. Assistir a The Mastermind é aceitar uma jornada onde a tensão inicial se transforma em observação — e onde o desconforto é parte essencial do caminho.

Nota final: 7/10 — Reflexivo, belo e divertido

Ficha Técnica

Título: The Mastermind | Título Original: The Mastermind | Ano: 2025 | 1h58 | Gênero: Crime | Direção: Kelly Reichardt | Roteiro: Kelly Reichardt | Elenco: Gaby Hoffmann, Hope Davis, Bill Camp, Josh O’Connor, John Magaro, Alana Haim e mais Distribuição: Imagens Filmes

The Mastermind | Onde Assistir?

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