Crítica | O Filho de Mil Homens transforma silêncio em afeto, sem pressa de provar nada

Rodrigo Santoro como Crisóstomo diante do mar em O Filho de Mil Homens

O Filho de Mil Homens é um filme que precisa ser aceito no tempo dele. Ele começa com uma delicadeza quase desconfiada, como quem pede licença, e só depois revela o tamanho do que está tentando fazer: falar de pertencimento sem transformar isso em discurso, e sim em sensação.

Dirigido por Daniel Rezende, que já tinha mostrado, em caminhos bem diferentes, que gosta de trocar de pele — de um cinema mais expansivo e popular a experiências que exigem outro tipo de atenção. O curioso aqui é ver essa inquietação virar método. Em entrevistas, ele descreveu este filme como aquele que o tirou “da zona de conforto” e, mais do que isso, como um trabalho “mais maduro e ousado”, justamente por apostar num registro mais poético e mais silencioso.
E é possível sentir isso na tela como uma decisão de linguagem – nada parece com pressa de convencer. O filme não tem medo de parecer simples por fora, nem de deixar que o espectador complete o que não é dito. E talvez seja aí que ele cria um pacto delicado – eu só recebo o que o filme tem de melhor quando paro de tentar “apressar” a experiência.

A trama acompanha Crisóstomo, um pescador de 40 anos que cresceu isolado e carrega um desejo muito específico: ser pai. A vida dele se abre quando ele encontra Camilo, e essa relação vira o eixo de uma família que não nasce do “formato certo”, mas do encontro possível. Ao redor deles, outras histórias se entrelaçam — gente marcada por rejeições, vergonha, medo e aquela solidão que não se resolve com companhia, e sim com acolhimento.

O que mais chama atenção é que “O Filho de Mil Homens” não trata “família” como prêmio final, e sim como trabalho cotidiano: uma construção feita de escolhas pequenas, de olhares, de silêncios e de gente aprendendo a existir sem pedir desculpas pelo que é.

O que muita gente enxergou e por que isso faz sentido

A repercussão entre a crítica e o público apresenta duas correntes bastante claras. De um lado, quem abraça a delicadeza e fala do filme como uma experiência de afeto e sensibilidade; de outro, quem se incomoda com o ritmo e com a opção por um tom mais contemplativo, esperando algo mais “direto” ou mais tradicional na condução.

O próprio Daniel Rezende ao falar sobre o filme em entrevista para a Revista Cult afirma que esse “não é um filme para todo mundo” o que acaba virando uma espécie de aviso honesto: ele sabe que está indo contra a onda de aceleração e pressa que vivemos e aposta que existe público para um drama que pede mais escuta.

Rebeca Jamir e Rodrigo Santoro em cena do filme O Filho de Mil Homens

Em um primeiro momento, o “O Filho de Mil Homens” me trouxe uma impressão de um filme mais arrastado e mais lúdico do que eu esperava. Existe ali uma camada de metáfora que obriga a comprar a proposta antes de entender exatamente qual é o jogo. Se você consegue entrar nessa frequência, o filme vira um lugar confortável de estar; mas se você fica do lado de fora, ele pode parecer repetitivo. 

Só que, passada essa primeira meia hora, algo muda. Não no sentido de “virar outro filme”, mas de finalmente encaixar o tom. A história encontra seu pulso emocional e começa a te conduzir com firmeza — e aí você entende por que o ritmo inicial é, na verdade, uma preparação: o filme quer que eu desacelere para perceber as relações se formando. E isso é mágico.

O Filho de Mil Homens | O silêncio que vira conversa

Uma das marcas do filme é sem dúvida a capacidade que ele usa o silêncio e a natureza como parte da narrativa, não como intervalo. Há sons de ambiente que parecem carregar o que os personagens não conseguem dizer, e isso cria uma intimidade rara – eu me senti perto deles, mesmo quando ninguém estava “explicando” nada.

A trilha aparece como complemento, mas o que sustenta mesmo é essa textura sensorial — o vento, o mar, o espaço. Em muitos momentos, eu tive a sensação de que o filme estava tentando traduzir em imagem e som um sentimento que não cabe em diálogo. 

Assim também é com os personagens, Rodrigo Santoro que vive Crisóstomo, por exemplo, entrega uma atuação que poderia soar caricata em razão da imagem que se constrói do homem que vive para a pesca, sendo interpretado por um rosto conhecido e talvez distante dessa realidade, mas ele encontra ali uma vulnerabilidade que te ganha nas primeiras cenas e convence.

É uma atuação que não é exagerada; Johnny Massaro que dá vida a Antonino, mesmo sem quase ter momentos de fala, entrega umas das melhores atuações do filme, dizendo tanto com suas expressões que é impossível não se comover.

E essa é uma marca de “O Filho de Mil Homens”, as personagens de Isaura (Rebeca Jamir) e Camilo (Miguel Martines) que fecham o quarteto principal, são mais lembrados pelos seus olhares, expressões e verdade com que atuam do que com falas e diálogos, tamanha a capacidade que o filme tem de falar pelas entrelinhas. 

Johnny Massaro em cena do filme O Filho de Mil Homens

⚠️ A partir daqui há spoilers

Violência como linguagem e o preço de fingir que não vê

Depois de passar um bom tempo parecendo um mosaico de relatos quase independentes, o filme faz um movimento que muda a leitura do que veio antes. A sensação de “antologia” não é um capricho: é uma forma de nos acostumar a ver cada personagem como um mundo fechado — e, justamente por isso, o momento em que as trajetórias começam a se encostar tem impacto real. 

É como se o roteiro dissesse para nós que ninguém sofre sozinho, ninguém se constrói sozinho, e nenhum trauma existe longe do lugar onde ele nasce.

O segundo ato funciona como um gesto de costura – o que parecia disperso se organiza, não para virar um quebra-cabeça de “solução”, mas para chegar a um tipo de clímax que é mais afetivo do que narrativo. Quando essa convergência acontece, o filme confirma que a proposta nunca foi “acompanhar tramas”, e sim construir pertencimento como resposta ao dano. 

A chegada de Antonino na casa de Crisóstomo, por exemplo, e a visita de sua mãe que culmina com o que seria mais uma humilhação na vida do personagem, termina com um abraço entre os “rejeitados” em uma lição sobre a importância do acolhimento e empatia e de que nem sempre eles virão de quem se imagina.

Esse mesmo abraço coletivo entre personagens também se estende a nós espectadores que ainda estávamos catando os cacos depois do grito que até agora ecoa e transborda tudo aquilo que estava preso em tanta violência que nos é apresentada de forma velada e constrangedora por refletir as marcas de uma sociedade que insiste em relativizar o preconceito contra as minorias.

A violência aparece menos como “evento” e mais como atmosfera social – ela está no preconceito cotidiano, na opressão moral, na violência sexual sugerida/explicitada, na forma como a comunidade empurra gente para papéis estreitos. O filme vai revelando que, por trás de cada personagem, há um sistema de vergonha e punição funcionando a céu aberto.

Cena do grito do filme O Filho de Mil homens

O que fica depois que tudo termina

O Filho de Mil Homens traz uma reflexão sobre pertencimento e legado. Sobre quanto de nós é feito pelos encontros — e por quantas vezes a gente só vira alguém porque alguém decidiu ficar ou ir. É um filme que toca na culpa silenciosa de “não ser suficiente” para quem se ama, e na ideia de que família não é uma estrutura pronta: é uma escolha repetida.

Mesmo com um gesto de tentar “explicar capítulo por capítulo” através de uma narração e citações da obra literária, que em alguns momentos, insistem um pouco além do necessário, ainda mais para quem não teve qualquer contato com o livro, não chega nem de longe a estragar, mas empurra a experiência para um lugar mais literário do que cinematográfico.

Esse é um filme para quem gosta de poesia em imagem, de filmes que respiram, e de histórias que dizem muito nas entrelinhas. Para quem “ouve” silêncio e enxerga afeto no detalhe, ele é um presente.

Agora, se a expectativa é por um drama que começa agarrando pela trama e entregando tudo de forma mais objetiva, existe chance de frustração. O filme pede uma entrega inicial — e isso divide opiniões. No meu caso, quando eu aceitei o pacto, ele me devolveu uma história comovente até o último minuto.

Nota 9/10 – delicado, comovente, poético

Ficha Técnica

Título: O Filho de Mil Homens

Ano: 2025 | Duração: 128 min

Gênero: Drama

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Daniel Rezende

Elenco: Rodrigo Santoro, Johnny Massaro, Miguel Martines, Rebeca Jamir, Juliana Caldas e mais

Onde Assistir: Netflix

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