Bugonia (2025): entre a manipulação e a realidade

Cena de Bugonia
Cena de Bugonia

Recém chegado aos cinemas brasileiros, Bugonia se encaixa com naturalidade no terreno híbrido entre drama, tensão e crítica contemporânea, um espaço que Lanthimos domina ao tensionar o comportamento humano. A sensação inicial é de envolvimento total: a história “prende muito”, e essa imersão imediata valoriza a obra ao capturar o espectador desde os primeiros minutos.

Na história, acompanhamos Teddy (Jesse Plemons) e seu primo Don (Aidan Delbis) que estão convencidos de que a poderosa CEO de uma grande corporação, Michelle Fuller (Emma Stone), não é humana, mas uma alienígena prestes a destruir a Terra. Eles a sequestram, acreditando estar protegendo a humanidade de uma ameaça extraterrestre iminente. A partir daí, o longa se desenrola como uma jornada tensa e claustrofóbica de interrogatório, paranoia e conflito entre convicções extremas, em que a dúvida sobre quem realmente é o monstro acompanha cada cena.

A tensão acumulada, a surpresa e a reflexão criam um clima que faz com que Bugonia transite tanto no campo emocional quanto no intelectual, como um espelho distorcido sobre o impacto das narrativas que consumimos.

Bugonia | Um fio de tensão que nunca se rompe

Apesar de clara, a história busca esconder do espectador alguns pontos, mas sempre avançando e mantendo o interesse vivo. Com uma trama fluída e lógica, com diálogos naturais e cenas bem desenvolvidas, o longa preza por coerência mesmo dentro de uma estética provocadora.

A originalidade aparece de maneira sutil, com “algumas coisas diferentes” que deslocam a história do convencional, trazendo aquela estranheza funcional típica do diretor. Você nunca sabe o que é real ou imaginação, até ter aquele choque com a atitude das personagens.

O ritmo merece destaque: “nunca fica chato”. Ao menos para mim, enquanto assistia, não me preocupei com o tempo e queria saber para onde aquela história estava me levando. Podemos dizer que Bugonia constrói sua tensão com inteligência, sem recorrer a pressa artificial ou longos desvios. Mesmo assim, a estrutura sofre com uma conclusão menos eficiente — uma crítica recorrente em filmes que ousam mais do que explicam.

Bugonia | Lanthimos conduz, você sente

A direção é bem conduzida, fluida e fácil de acompanhar. Mesmo com a estética menos extravagante que outras obras do diretor, a condução de Lanthimos parece ter funcionado como uma lente precisa: segura no ritmo, firme no tom, eficiente em moldar tensão e expectativa.

A emoção, especialmente a tensão, nasce diretamente dessa condução. A sensação de “não saber o desfecho” aponta para uma manipulação consciente do espectador, onde a direção funciona como mecanismo para criar inquietação, não apenas estética.

Bugonia | Humanos, contraditórios e reveladores

Cena de Bugonia

Quando falamos dos personagens, talvez cheguemos em um dos pontos mais fortes do filme. Em Bugonia, eles “parecem reais”, têm decisões compreensíveis e carregam emoções verdadeiras. Você certamente conhece alguém próximo que poderia ser qualquer um deles (o que pode ser um pouco perturbador, eu sei). Mas isso traz uma coerência emocional, algo difícil em filmes com esse tom metafórico.

As atuações seguem o caminho do realismo: são precisas, encaixadas e profundamente críveis. Não há um destaque isolado — o conjunto, aqui, é o que realmente se impõe. Emma Stone mais uma vez entrega o novo, o estranho, o instigante; reafirma, sem esforço aparente, por que é uma das gigantes de sua geração. Sua parceria com Jesse Plemons — com quem já dividiu a tela no igualmente subversivo Tipos de Gentileza (2024) — permanece fresca, longe de qualquer repetição.

Plemons, por sua vez, oferece uma performance tão sensorial que quase deixa escapar o cheiro do personagem enquanto manipula o primo, vivido por Aidan Delbis. O jovem ator, também no espectro autista como seu personagem, imprime autenticidade e se torna um dos pilares mais potentes da narrativa.

Bugonia | Reflexão, impacto e um final que não acompanha a força do percurso

A trilha sonora “combina bem”, mas não busca destaque. Ela funciona como suporte, reforçando a experiência sem competir com o silêncio, as respirações, o desconforto e os diálogos — elementos que constroem uma atmosfera muito mais poderosa do que melodias estruturadas poderiam oferecer. Ainda assim, contribui emocionalmente, mesmo que de forma discreta.

A experiência que fica é guiada por uma combinação de tensão, surpresa e reflexão — um tripé que sustenta o interesse do filme para além de sua própria narrativa. O final, no entanto, não acompanha a força do percurso: é funcional, mas carece da intensidade que vinha sendo construída com tanto cuidado, o que enfraquece o impacto das últimas cenas.

Muito disso se dá pelo choque e coragem do diretor em definir um caminho ao invés de pedir ajuda ao espectador e jogar para o público essa responsabilidade, mas aqui a intenção foi de tratar o absurdo como absurdo e se você não está preparado para ser contrariado, talvez esse final te incomode mais.

A pergunta que fica é: E se for verdade? E aqui só indo para o espaço mesmo, bem longe da Terra para tentar enxergar de longe o que de perto se torna cada vez mais difícil. E não porque você tem ou não certeza de algo e sim de que existe cada vez menos, o espaço para debater, e ao menos tentar entender, diferentes pontos de vista. Quando um dos personagens diz que não assiste TV ou ouve rádio para saber de notícias locais que acontecem em uma cidadezinha pequena onde tudo provavelmente está nesses canais, claramente estamos diante uma seleção proposital do tipo de informação que queremos receber. É o controle da própria bolha.

Apesar disso, o filme se mantém relevante, sobretudo pelas atuações e pelos temas que aborda com precisão: manipulação em massa, distorção da realidade e o peso das informações digitais. Uma leitura afinada com debates que surgem cada vez mais sobre obras que dialogam diretamente com a era da pós-verdade.

Bugonia | Por que assistir?

Bugonia merece ser visto porque entrega uma experiência emocionalmente envolvente e intelectualmente provocadora. A tensão contínua sustenta a narrativa, enquanto a direção segura constrói uma sensação constante de incerteza que prende do início ao fim. Os personagens são tridimensionais, as atuações funcionam com naturalidade e o filme debate temas extremamente atuais — especialmente a manipulação da informação e o poder das narrativas digitais sobre o comportamento humano.

Mesmo com um final que foge às expectativas, não por acidente de percurso, mas por coragem, a jornada é forte, reflexiva e relevante. É um daqueles filmes que não apenas entretêm: fazem pensar no presente com desconforto e lucidez.

Nota: 8/10 — intenso, reflexivo e perturbador

Ficha Técnica

Título: Bugonia | Título Original: Bugonia | Ano: 2025 | 2h 00m | Gênero: Comédia / Ficção Científica / Suspense | Direção: Yorgos Lanthimos  | Roteiro: Will Tracy | Elenco: Emma Stone; Jesse Plemons; Aidan Delbis; Stavros Halkias; Alicia Silverstone (e mais) | Distribuição: Universal Pictures / Focus Features

Bugonia | Onde Assistir?

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