Depois da Caçada é um daqueles filmes que chegam com um peso estranho: não exatamente difícil, não exatamente incômodo — apenas intenso de um jeito que deixa você ainda processando os primeiros minutos. Luca Guadagnino aposta em uma abordagem tão sensorial quanto emocional, mas nem sempre suas escolhas encontram o equilíbrio que a história pede.
Conteúdo
- 1 Depois da Caçada | O gesto como linguagem
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- 1.1.1 “Éden” (2024): Um thriller de sobrevivência, tão belo quanto inquietante
- 1.1.2 “Casa de Dinamite” (2025) : tensão que começa cedo e não solta mais
- 1.1.3 Frankenstein: quando a solidão revela o verdadeiro monstro de Guillermo del Toro
- 1.1.4 “O Amigo” (2024): quando o luto encontra companhia inesperada
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- 2 Depois da Caçada | O brilho contido nos coadjuvantes
- 3 Depois da Caçada | Contemplação demais, tensão de menos
- 4 Depois da Caçada | Por que assistir?
- 5 Ficha Técnica
- 6 Depois da Caçada | Onde Assistir?
Depois da Caçada | O gesto como linguagem
A direção se destaca principalmente pelo movimento de câmera, uma marca já reconhecível de Luca Guadagnino. Quem não se lembra daquela cena do jogo de tênis em “Rivais (2024)”, em que somos colocados literalmente no lugar da bolinha? Aqui, há um interesse profundo nas mãos dos personagens, como se elas próprias contracenassem, revelando hesitação, culpa ou desejo antes mesmo da fala. É um gesto potente, quase uma metáfora sobre o que se tenta segurar — e o que inevitavelmente escapa.
O roteiro funciona como um drama de caminhos estreitos, fechado em sua proposta, porém arrastado na forma. A trama demora a se desenvolver, segurando informações que o espectador já intui desde cedo, o que reduz o impacto quando finalmente chegam. Por outro lado, apressa-se para tentar abraçar vários temas importantes — reputação, verdade, memória — mas não chega a uma conclusão satisfatória, deixando mais pontas soltas do que reflexões concretas.
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Depois da Caçada | O brilho contido nos coadjuvantes
As atuações têm boa entrega emocional, especialmente nas partes mais silenciosas. Mas quem realmente se destaca é Michael Stuhlbarg, que interpreta Frederik que ganha cenas excelentes impulsionadas pela trilha sonora. São momentos em que o filme parece respirar melhor apesar de refletir um pouco a sensação do espectador que não sabe muito bem o que está fazendo ali.
Já a fotografia é talvez o ponto mais controverso. A estética sombria, quase opaca, dificulta a conexão em cenas nas quais queremos ver o que está acontecendo. Os closes frontais são o oposto disso — fortes, quase invasivos. Funcionam como convites (ou desafios) para olhar diretamente nos olhos dos personagens e tentar entender se dizem a verdade.
Depois da Caçada | Contemplação demais, tensão de menos
A trilha sonora é disparado o melhor elemento do filme. Rica, evocativa, histórica, ela carrega parte da emoção que o ritmo lento parece sabotar. É ela que mantém a tensão viva e chama o espectador de volta quando a narrativa ameaça dispersar. Há uma cena musical, em especial, que funciona como ponto de virada emocional — quase um personagem próprio.
A montagem segue um estilo contemplativo, com transições pensadas e tensão sutil. Mas o efeito geral é de lentidão excessiva. Quase três horas de história para uma trama que se sustenta menos na narrativa e mais na experiência sensorial, tornam “Depois da Caçada” um pouco cansativo demais
O filme funciona especialmente na forma como constrói tensão, usando sons de instrumentos e escolhas de trilha para ampliar a expectativa e direcionar o olhar do espectador. Esses elementos criam uma atmosfera constante de inquietação, sustentando a narrativa mesmo quando o ritmo desacelera e mantendo o interesse pela carga emocional das cenas.
O grande problema é o ritmo excessivamente lento, aliado a cenas muito escuras que dificultam a conexão visual e emocional. A demora no desenvolvimento da trama prejudica o impacto final, já que o filme retém informações que o público percebe cedo, o que diminui a força da revelação e deixa a conclusão menos surpreendente do que deveria.
Depois da Caçada | Por que assistir?
“Depois da Caçada” vale a experiência pela maneira como discute a pressão da opinião pública e o impacto que ela tem sobre a vida privada, além de provocar reflexões sobre verdade, cultura do cancelamento, culpa e narrativa pessoal. A relação entre Alma e Hank sintetiza bem essa tensão entre o que se vive e o que os outros projetam — e o filme convida o espectador a pensar no que significa ter a própria história distorcida por expectativas alheias.
Mesmo sem entregar respostas definitivas, a obra oferece um mergulho emocional sobre como a sociedade transforma dramas individuais em espetáculo, deixando rastros que nem sempre se dissipam quando a “tempestade” passa, ainda que para isso tente alcançar mais temas do que está realmente disposto a abordar.
Nota: 6/10 – sombrio, contemplativo e dramático
Ficha Técnica
Título: Depois da Caçada | Título Original: After the Hunt | Ano: 2025 | 2h 19m | Gênero: Drama / Suspense | Direção: Luca Guadagnino | Roteiro: Nora Garrett | Elenco: Julia Roberts, Andrew Garfield, Ayo Edebiri, Michael Stuhlbarg (e mais) | Distribuição: Sony Pictures / Amazon MGM Studios





